Carta para o fenômeno
Gustavo Werthein
Caro Ronaldo Fenômeno,
Li esta semana que os clubes interessados em ter você em 2009 ganharam um temível concorrente: a aposentadoria. Depois de jogar 20 minutos em um amistoso com Zidane, você disse ao Diário Marca não saber se volta a jogar. “As pernas estão pesando muito”, teria dito você. Sem dúvida pesam e não há médico, fisioterapeuta, treinador ou psicólogo que discordem: para um atleta como você, que provou que as ganas de jogar superam a dor das seguidas lesões, a matemática é simples: o peso das pernas é proporcional ao excesso de peso.
Já em uma sessão de análise, você provavelmente ouviria que a fome, que preenche a angustia e as incertezas, parecem ser maiores do que a fome… de bola. Aquela que fez do garoto mirrado de outrora, um homem obstinado, eleito três vezes o melhor jogador do mundo.
Apesar de, ou por causa de, toda fama, dinheiro, lindas mulheres e um dom especial para jogar futebol - atributos que a maioria dos jovens gostaria de chamar de seus - você parece não conseguir encontrar a paz de espírito que te permita dar um salto rumo a um digno capítulo final em sua brilhante, porém sofrida carreira.
Se não vejamos: Você treinou com os jogadores do Flamengo, se recuperava, emagrecia e, ao participar do Bem, Amigos! Sentenciou: “quero o Flamengo. Espero estar bem para que ele me queira”.
É claro que quer. Ronaldo. É claro! Ou você acha que há algum torcedor do Flamengo que seja contra uma arrancada fenomenal, como naquele Barcelona x Compostela de 1996. Lembra? Ou que não queira comemorar seu gol diante de um Boca Juniors na final de uma Libertadores?
A reciprocidade desse amor parece clara, mas o sonho de tê-lo, Ronaldo, parece tão obscuro e distante como é hoje o sonho do torcedor de chegar a uma final sul-americana. Enquanto o Flamengo embarca no sonho de chegar pela terceira vez seguida à competição mais importante das Américas, você dá a impressão de ir na contramão do seu sonho. Um dia parece aquele Flamengo contra o Palmeiras: decidido, fazendo planos e declarando seu amor ao rubro-negro. No outro, dá um branco, e de camiseta branca - pesadelo estético dos gordinhos - desfila uma silhueta incompatível com sua meta de voltar a jogar.
Que você, Ronaldo, é capaz de superar as cansativas horas de fisioterapia e treinos físicos, acho que, depois de 2002 ninguém mais duvida. Difícil será se livrar da implacável marcação da tentação, que entra de sola todos os dias em que você se senta à mesa para comer.
O Flamengo e o Brasil te querem, Ronaldo. Mas cabe a você desafiar a irônica história de um homem que se tornou mito vencendo obstáculos quase intransponíveis, e que hoje, no jogo da vida, perde de goleada para a gula. Sorte para você, Ronaldo e, desde já, um Feliz 2009. Jogando futebol.
Gustavo Werthein é jornalista, tradutor e fã de Ronaldo
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Esse é Ronaldo Luis Nazário de Lima. Aos 31 anos, o (ex) Fenômeno acordou nesta terça-feira em Ibiza sem clube – o contrato com o Milan terminou ontem e o rubro-negro italiano não tem interesse na renovação. Fato inédito na carreira do jogador.