Frases como a de Maradona, que diz que nunca ter visto “um Brasil tão pequeno e defensivo” como o de ontem, em Pequim. Ou de Ronaldinho Gaúcho, que “nós, brasileiros, não estamos acostumados a perder” ecoam pela mídia mundial na quarta-feira. O Olé, como sempre, faz a farra. Enquanto isso, recomendo a leitura do texto abaixo.
Pedro Costa
Há alguns anos, li um livro de Júlio Dinis chamado Os Fidalgos da Casa Mourisca (um pouco chato para se ler, mas não é esse o ponto).
Nesse livro, há uma família da nobreza que está falida. A sua casa está deteriorada, não tem dinheiro para fazer viagens, os negócios estão mal. Na casa ao lado, em excelente estado, mora uma família da burguesia, que fez fortuna resultante do empreendedorismo imprimido nos negócios. No entanto, os fidalgos, apesar de estarem em decadência, não perdem a sua pose.
Assim ocorre no futebol brasileiro. O campeonato tem um nível técnico sofrível, mas, no entanto, é o melhor do Mundo. Tem mais Kick and Rush que o campeonato inglês, por exemplo, mas o campeonato inglês é horrível, quando, na realidade, é um campeonato com um nível técnico muito superior ao do Brão e onde o Kick and Rush foi abandonado. Basta comparar o futebol praticado por Man Utd e São Paulo.
Tem, também, a história que o jogador brasileiro é diferenciado e que os culpados por estes perderem estas características diferenciadoras são, claro está, os europeus que todos contratam. Se é assim, porque é que Kaká se tornou num dos melhores jogadores do Mundo e manteve as suas características, apesar de estar no campeonato em que se defende mais e melhor no Mundo? Seguindo essa lógica, seria caso para ele ter regredido.
Os clubes têm, quase todos, gestão amadora (ou até pior que isso…), não têm boas instalações, não apostam, de forma séria e profissional, na formação e, por isto, cada vez menos aparecem bons jogadores. Facto notório na selecção brasileira, onde não aparece uma geração para substituir, imediatamente, a anterior geração vencedora.
E… há os outros. O nível do futebol mundial subiu, substancialmente, nos últimos 15 anos e muitas selecções aproximaram-se do nível da selecção brasileira e, em alguns casos, ultrapassaram-no. Houve uma grande aposta, um pouco por todo o Mundo, na formação e na qualificação das instalações desportivas.
Mas, claro, o futebol brasileiro, apesar de estar mal, segue orgulhoso, tal como o nobre falido, e desdenhando, arrogantemente, do futebol dos outros países, que, tal como o burguês, trabalharam bem e subiram bastante no seu meio e que, em alguns casos, já são melhores.
Com este panorama, acho errado culpar Dunga. Uma eventual demissão de Dunga serviria apenas para encobrir os verdadeiros problemas do futebol brasileiro.