Os finalistas
Uma semana depois do fim do Brasileirão, o JA publica dois textos de torcedores dos times finalistas da competição: os tricolores, gaúcho e paulista, respectivamente.
Um feudo chamado futebol
Fernando Horta
Durante os anos 1000 d.C. O mundo era regido por uma série de senhores que brandiam suas espadas defendendo seus servos. Lá era tudo permitido, a violência era a marca explícita da força. Pois atualmente algo continua e algo radicalmente é mudado. Ainda senhores que podem brandir suas ‘espadas’ defendem os seus, hoje as espadas de antes são o poder financeiro. Hoje também vale tudo, ética não combina com capitalismo. Futebol combina, e muito. Mas hoje o silêncio é a marca explícita da força. A violência está na mordaça e não mais nos golpes de machado. O futebol brasileiro já vive o problema da saída prematura de jogadores (que podem ou não tornarem-se craques), vive o problema do baixo poder aquisitivo da sociedade como um todo para sustentar o futebol, somos como os servos do ano 1000 d.C. mas o senhor do futebol continua lá, incólome desde que me conheço por gente. Enquanto o senhor Ricardo Teixeira mandar financeiramente, politicamente e definitivamente no futebol brasileiro o princípio mais básico da democracia é afetado e com ela todo o castelo de cartas cai.
O caso Tardelli não é mais rumoroso que a vergonha de 2005 mas todos dois são apenas pontas de iceberg. Nosso futebol já é suprimido de craques que não seja de idoneidade. Os craques nós fazemos aos montes mas a idoneidade, embora presente majoritariamente no povo brasileiro, não chega nem aos postos de comando da nação quanto mais do futebol. Temos que investigar, não podemos aceitar a mordaça sórdida dos interesses econômicos, ao menos não no nosso amado futebol, por um futebol brasileiro limpo e transparente. Nossa paixão merece!
Fernando Horta é gaúcho, gremista, professor de história, redator e ghost-writter
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Itinerário de um hexacampeão
Pedro Felizola
5 (horas na fila para comprar o ingresso) + 9 (horas gastas no domingo entre sair de casa e chegar em casa) = 14 horas investidas no hexacampeonato tricolor. Como são-paulino e morador de Brasília, não poderia ficar de fora da decisão do título brasileiro de 2008. Foi um dia para entrar na História.
Saí de casa com minha irmã às 13hs em direção ao Gama, que fica a cerca de 35 km de onde moro. Cheguei ao estádio por volta de 14:15hs, após uma parada para buscar alguns amigos são-paulinos. Na chegada ao Bezerrão, já vi que a tarde seria de festa. Um mar de pessoas já fazia fila para entrar no estádio de R$ 55 milhões de reais, reformado às custas do dinheiro público para ser usado por um time de 3ª divisão e servir de campo de treino durante a Copa de 2014.
Voltando à decisão: foram horas de muita expectativa até a entrada dos times em campo. O calor era enorme e a ansiedade, ainda maior. Tudo valeu a pena. Inclusive a chuva do segundo tempo, que alagou o estacionamento a ponto de atolar diversos carros. Nada tirou o brilho da conquista do São Paulo.
O ápice da festa foi o gol de Borges. Uma explosão! O pequeno estádio parecia o Morumbi (ou Moruntri, se preferirem), lotado de são-paulinos empurrando o time sem parar. Aí entram os chorões e corneteiros de plantão, reclamando do impedimento não marcado pelo homem de preto. Como se esse fosse o fato responsável pelo título ir para o São Paulo, e não para o Grêmio. Poupem-nos. Os gaúchos não foram capazes de manter a liderança e se desesperaram com o crescimento do Maior do Brasil na reta final. Nada de estranho, afinal é de se assustar mesmo ver o São Paulo no retrovisor, sustando uma invencibilidade crescente e absolutamente fantástica no segundo turno.
A equipe fez um jogo firme e comprometido com a marcação. Não foi genial, mas foi determinada ao extremo. O Goiás teve poucas chances, quase todas criadas pelo ótimo lateral-direito Vítor (abre o olho, JJ!). Tudo sob controle. Nem o gol do Grêmio, comunicado pelo meu amigo Túlio (que acompanhava tudo pelo seu radinho de pilha cheio d’água), tirou a nossa confiança no título.
Ao final, a alegria foi completa. Volta olímpica, lágrimas, cantos de vitória. Rogério, o mito, aproximava-se do alambrado e levava a torcida à loucura. Os gritos de “Ah, é Muricy” ecoavam por todos os lados. À minha esquerda, um jovem torcedor chorava copiosamente abraçado ao pai. Um pouco abaixo, um outro gritava: “Eu vi meu time ser campeão!!!!”. À minha frente, um grupo de são-paulinos que tinham vindo de Rondônia para ver o jogo vibrava com o título. De todos os lados, o hino do clube mais vencedor do país reverberava a emoção generalizada.
As notas finais: André Dias foi um monstro! Jogou demais, assim como durante todo o campeonato. Melhor zagueiro do torneio, mesmo não sendo tão talentoso quanto Miranda. Ao término da partida, o grande Rodrigo parecia muito emocionado. Abraçou o médico tricolor José Sanchez, um dos maiores responsáveis por sua recuperação. Se o Mengo não te quis, azar deles, Rodrigão! Você é tricolor!
O trânsito para deixar o Gama, após a partida, foi incrível. Uma lentidão absoluta, incapaz, porém, de tirar a animação da nação são-paulina do DF, que comemorava o hexa nas ruas.
O São Paulo demonstrou, sem dúvida, ter uma torcida apaixonada e vibrante em Brasília, capaz de proporcionar espetáculos sensacionais. Infelizmente, emoção como a de ontem será difícil de viver por estas bandas. Mas uma verdade ficará guardada para sempre na memória dos são-paulinos que foram ao Bezerrão no dia 07 de dezembro de 2008: “Eu vi meu time ser campeão!”. 14 horas? Foi pouco.
Pedro Felizola é são-paulino e foi testemunha ocular do hexacampeonato conquistado no Bezerrão
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