Andrea Moda S921 (1992)
Empresário do ramo de sapatos, Andrea Sassetti entrou na Fórmula 1 adquirindo os “restos mortais” da Coloni, que fechara as portas em 1991 depois de mais um ano de fracassos. Nascia a Andrea Moda, uma das maiores fraudes da categoria máxima em toda a sua história.
A história do time é repleta de fatos complicados, nebulosos e, por que não dizer, bizarros. O primeiro evento foi logo no início do campeonato: Sassetti contratara Alex Caffi e Enrico Bertaggia e os dois foram para a África do Sul tentar a classificação para o primeiro GP do ano de 1992.
Porém, a FIA vetou a participação da Andrea Moda porque o carro era o Coloni C4 do ano anterior e Sassetti pagara os US$ 100 mil de depósito exigidos pela FIA sem se dar conta que deveria mudar o nome dos carros, já que a regra vigente desde 1981 não permitia mais a uma equipe comprar carros de outro construtor.
Assim, o jeito foi construir um novo carro. O jovem Nick Wirth, do escritório Simtek Research, projetou com o auxílio de Michel Costa o chassi S921 que receberia o motor Judd de 10 cilindros. E como Bertaggia e Caffi pularam fora após o México, já que a montagem do monoposto aconteceu - isso é “verdade verdadeira” - no dia seguinte à corrida, Andrea Sassetti contratou Roberto Pupo Moreno e Perry McCarthy a partir do GP do Brasil.
A participação da equipe em Interlagos foi uma odisséia. Quem gosta de narrar a história é Luiz Alberto Pandini, que conhecia Sylvio Romero, integrante da equipe. Sylvio foi um obscuro piloto de Fórmula Ford nos anos 80 e 90, que construiu seu próprio carro - o Rocom 1 - na sala de casa, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Depois ele se deu conta de que não conseguiria descer o monoposto no elevador…
Pois bem: Romero era um dos “engenheiros” da Andrea Moda e o panorama nos boxes era desalentador. Um ou dois mecânicos trabalhando e um chassi nu, completamente desmontado, sem motor, suspensão, nada. Panda, curioso, perguntou a Sylvio se o carro ficaria pronto. “Vamos varar a madrugada montando o carro, para fazer um shakedown no Autódromo de Jacarepaguá”. O dia era, incrivelmente, 1º de abril.
Para nenhuma surpresa do Pandini, o carro não ficou pronto, mas tinha algumas coisas montadas nele. E como todo bom jornalista, o Panda perguntou de novo quando o Andrea Moda ficaria pronto. “Ontem tivemos um probleminha, mas hoje vamos montar tudo e levar o carro para a pista de testes da Varga para o shakedown.”
Nada feito: o carro não ficou pronto e aí nosso bravo Pandini sentiu cheiro de armação no ar. E emendou para um resignado Sylvio Romero a pergunta fatal:
“E aí, vai andar?”, no que foi respondido: “Vamos trabalhar agora para fazer o carro andar no Campo de Marte.” Panda se segurou para não achar graça e no dia seguinte não se surpreendeu ao ver o carro desmontado, mas quase pronto. Mas se assustou com a resposta de Sylvio Romero.
“Agora é ver se vai andar na pista. Isso, se conseguir sair do lugar.”
Com um carro apenas e Perry McCarthy impedido de treinar, pois a FIA não lhe concedera a Superlicença, Moreno, que se alimentava nos boxes com uma maçaroca de banana amassada, mel e farinha láctea esperando o carro ser montado, teve a impossível missão de levar o carro para os treinos oficiais.
Moreno deu pouquíssimas voltas e virou tempos vergonhosos para um Fórmula 1. Só pra se ter uma idéia, ele foi mais lento que o pole position da última etapa do Sul-Americano de Fórmula 3 disputada em Interlagos meses antes. E seu treino terminou com a alavanca de câmbio na sua mão direita…
Em Barcelona, outro vexame, já com o segundo chassi pronto: McCarthy, devidamente liberado pela FIA, entrou no carro, engatou a primeira marcha e… pá!… uma quebra depois de apenas três metros…
Nova desilusão em San Marino e a corrida seguinte era o GP de Mônaco. Com McCarthy sem sequer andar, Moreno tinha a missão de fazer o carro se classificar. E o primeiro milagre aconteceu na pré-qualificação: o brasileiro eliminou o japonês Ukyo Katayama, da Larrousse, e foi para os 30 que disputariam as 26 vagas do grid.
Para espanto geral, Moreno fez no primeiro treino o 20º tempo - 1′24″945 - o que provocou aplausos no paddock diante da bela performance dele, num carro que até então mal havia percorrido 100 quilômetros. Ele não melhorou sua marca, mas deixou de fora as duas Brabham (Eric van de Poele e Damon Hill), a Fondmetal de Andrea Chiesa e o March Ilmor de Paul Belmondo. Último no grid, Moreno por lá ficou durante onze voltas e abandonou por quebra de câmbio.
Aquele foi o único “momento de sonho” da Andrea Moda na F-1, pois a partir daí os problemas se multiplicaram. No Canadá, por falta de pagamento, a Judd não cedeu os motores e o equipamento da escuderia ficou retido na alfândega, até que Sassetti pagasse o que devia.
As desclassificações foram se acumulando, a paciência de Moreno e McCarthy terminando e nada melhorava. A Andrea Moda não foi à França e nas três corridas seguintes, novamente o S921 não passou das pré-qualificações. Com a insolvência da Brabham, a Andrea Moda passou a integrar os treinos oficiais, mas no GP da Bélgica o desempenho dos dois carros foi simplesmente lamentável.
Para completar, Sassetti emitiu notas frias e a polícia o perseguiu até prendê-lo. Passou uma noite no xilindró e a situação pouco nobre do sombrio e misterioso italiano levou a FIA a excluir a Andrea Moda da Fórmula 1 definitivamente.