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Quatro décadas de Tropicalismo e AI-5: o que o Brasil perdeu nos anos 60

Qui, 18/12/08
por Rodrigo Mattar |
categoria Música, Opinião

tropicalismo1.jpgO ano de 1968, tido e havido como “o ano que não terminou”, foi fervilhante na cultura e na política do Brasil. Graças a uma discussão de gente do naipe de Gláuber Rocha, Gustavo Dahl, Arnaldo Jabor, Nelson Motta e outros numa mesa de bar em Ipanema, batizou-se o movimento estético que a trupe baiana liderada por Guilherme Araújo e seus pupilos já vinham desenhando nos Festivais da Canção: o Tropicalismo.

Vivia-se naquela época uma constante preocupação da corrente “nacionalista” contra a música alienada, que tinha no iê-iê-iê e no programa Jovem Guarda a sua ponta-de-lança, com Roberto Carlos, Wanderléa e Erasmo Carlos na linha de frente e os demais da turma a lhes seguir. E contra toda esta turma, vinham Elis Regina, Geraldo Vandré e outros que defendiam a música popular brasileira.

Alheios a tudo isso - embora Gil tenha participado da passeata contra as guitarras elétricas (vejam só no que nessa “guerra” foi dar) - os baianos já planejavam o golpe de mestre, graças às influências de Beatles e Jimi Hendrix que mexeriam fundo com a sonoridade das músicas que tanto ele - Gil - quanto Caetano Veloso vinham compondo. “Alegria, Alegria” e “Domingo no Parque” são exemplos claros disso e a partir daí a proposta se amplifica, com outras canções de temática mais agressiva: “Questão de Ordem”, “Divino, Maravilhoso”, “É Proibido Proibir”, e a canção-símbolo do movimento, “Tropicália”.

Eles não estavam sozinhos no barco: Gal Costa também juntou-se aos seus conterrâneos, assim como Tom Zé, Torquato Neto, o maestro Rogério Duprat, Os Mutantes e, pasmem, Nara Leão - que teve um período ligado à Bossa Nova e depois às músicas de protesto no show Opinião em que dividiu o palco com Zé Keti e João do Vale antes de passar o posto para Maria Bethânia.

O Tropicalismo ganhou força com a vitória de Tom Zé no Festival da Música Popular Brasileira, com a boa repercussão das músicas interpretadas por Gal Costa e pelos Mutantes, além - e principalmente - do histórico embate entre Caetano Veloso e um público enfurecido na final da eliminatória paulista do Festival Internacional da Canção de 1968, transmitido pela Rede Globo, em virtude da classificação de “É Proibido Proibir” para a fase nacional no Rio de Janeiro.

“O que me interessa é desclassificar as coisas”, teria dito o baiano antes de entrar no palco do TUCA (Teatro da Universidade Católica de São Paulo). E desconstruir, desclassificar, eram palavras de ordem naqueles tempos tropicalistas. Isto foi provado no disco Tropicália e Panis et Circensis, distribuído pela Philips em 1968 e que dava voz e vez ao movimento.

Embora a música de Caetano já citada neste tópico não fizesse parte do disco, havia “Geléia Geral” (Gilberto Gil / Torquato Neto) para desenhar um retrato alegórico do país, assim como a irônica “Parque Industrial”, de Tom Zé.

Retocai o céu de anil… bandeirolas no cordão… grande festa em toda a nação… despertai com orações… o avanço industrial… vem trazer nossa redenção

O dramalhão também tem vez com uma versão bem-sucedida de “Coração Materno” (Vicente Celestino), interpretada por Caetano Veloso, que compôs com Gil a música “Lindonéia”, entregue para Nara Leão gravar com sua voz delicada em perfeito contraste com as imagens violentas da letra.

Despedaçados atropelados… cachorros mortos nas ruas… policiais vigiando… o sol batendo nas frutas… sangrando

A turminha d’Os Mutantes não ficou de fora: contribuíram em quatro faixas, tocando em “Miserere Nobis”, “Parque Industrial”, “Bat Macumba” e no “Hino ao Senhor do Bonfim da Bahia”. Além deles, o maestro Rogério Duprat deu sua parcela de contribuição nos arranjos e também nos efeitos sonoros (tiros de canhão e sirenes), além de citações inusitadas feito “O Guarani”, de Carlos Gomes, o Hino Nacional Brasileiro e o Hino da Internacional Comunista, usado em “Enquanto Seu Lobo Não Vem”.

Comercialmente, é claro que este foi um trabalho que não vendeu na época, mas as freqüentes manifestações dos baianos e do Tropicalismo na mídia começavam a incomodar um segmento muito forte no país naquele tempo: os militares, que já estavam cabreiros com a classificação de “Pra Não Dizer Que Falei das Flores” para a finalíssima do FIC e iniciavam um patrulhamento cada vez maior nas músicas compostas no Brasil de 1968. Para sorte deles, a canção de Geraldo Vandré, qualificada por muitos como uma ‘afronta’ à pátria, perdeu o primeiro lugar para “Sabiá”, de Chico Buarque e Tom Jobim - sem dúvida de melodia muito mais sofisticada que sua concorrente, mas obviamente um protesto velado contra o domínio da ditadura e a dor do exílio ao qual muitos já vinham se submetendo - Chico inclusive, visto que na época o artista vivia na Itália.

Não bastasse isso, as manifestações se tornavam ainda mais ruidosas e com participação popular em massa, como a famosa “Passeata dos Cem Mil”, que superlotou a Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Outro fato histórico é a reação da população ao assassinato do estudante Édson Luiz, no restaurante do Calabouço, que provocou diversas prisões e uma repressão tremenda da polícia, que baixou o sarrafo em quem quer que fosse: mulheres, homens, crianças, idosos e até grávidas.

Mesmo com o perigo rondando a cada esquina, o Tropicalismo ainda partiu para uma proposta mais ousada: um programa de televisão. E assim surgiu Divino Maravilhoso, exibido pela extinta TV Tupi com direção de Fernando Faro, produção de Antônio Abujamra e concepção de Gilberto Gil e Caetano Veloso. Antes da gravação, sempre às segundas-feiras no bairro do Sumaré, os dois inventavam tudo o que ia ao ar: uma tremenda loucura, como visto na estréia que aconteceu em 28 de outubro de 1968.

No palco, a anarquia foi tanta que Caetano até plantou bananeira e muitos se perguntam como a Censura Federal não mandou cortar o programa. Isso, no entanto, foi fichinha perto da ambientação à la Jesus Cristo e seus doze apóstolos que Gilberto Gil deu para sua “Miserere Nobis”, atirando bacalhaus e frutas para a platéia que assistia à uma outra gravação ao vivo.

Mas o pior ainda estava por vir: no dia 13 de dezembro, o Ato Institucional número 5, redigido pelo então Ministro da Justiça Luís Antônio da Gama e Silva, foi referendado pelo governo Costa e Silva, fechando o congresso, decretando o fim do habeas corpus e cassando em conseqüência disto os direitos políticos de quem fazia oposição ao governo militar. O cerco começou a se fechar também em direção à classe artística e os tropicalistas não eram exceção.

Dez dias depois, em mais um Divino Maravilhoso, já gravado, a gota d’água: Caetano cantou a marchinha “Boas Festas”, de Assis Valente, com um revólver apontado para sua cabeça. A cena brutal foi a senha para que o que vinha se desenhando naquele ano de 68 acontecesse: no dia 27, Gilberto Gil e Caetano Veloso foram presos e levados a quartéis diferentes, onde tiveram suas cabeleiras raspadas antes de serem banidos do país em fevereiro de 1969, pouco depois do carnaval.

A prisão dos dois e o fim do programa, que foi apresentado por Tom Zé durante um curtíssimo espaço de tempo, decretaram o fim do Tropicalismo. Aí fica a pergunta, que abre o leque para várias outras:

O que o Brasil perdeu nos anos 60? A democracia? A sua identidade cultural? A possibilidade de existir uma população menos miserável do que vemos hoje?

Pois o que se seguiu nos quarenta anos seguintes, embora tenhamos recuperado - depois de muito custo - o direito de nos expressarmos ideologicamente, a produção cultural no Brasil caiu. Proliferaram os cantores de música cafona, o que originou o “movimento da Cafonália” em contraponto à Tropicália e o Cinema Novo foi substituído pela pornochanchada de nudez apelativa e bilheteria fácil. O milagre econômico do nefasto governo Médici, celebrado em verso e prosa na época por músicas infames feito “Eu te amo, meu Brasil”, foi o estopim da explosão da dívida externa, a população cresceu e tornou-se na mesma proporção mais analfabeta - mesmo com o Mobral - e mais miserável do que já era em 1968.

Uma realidade que infelizmente persiste até hoje, com o Brasil-Bélgica fulgurante e o Brasil-Índia cada vez mais afundado na lama.

Um ano se passou… e aí?

Qua, 10/12/08
por Rodrigo Mattar |
categoria Opinião, Stock Car

O amigo Bruno Vicaria lembrou muito bem na Laje de Imprensa: ontem, terça-feira, completou-se um ano do trágico acidente na etapa de encerramento da Stock Light que tirou a vida do piloto Rafael Sperafico.

Assim como o Bruno, prefiro trazer comigo na memória a imagem do piloto vitorioso e que era de uma solicitude incrível, como mostrou comigo em Jacarepaguá ano passado numa sexta-feira chuvosa. Debaixo da tenda da equipe Full Time, que ele defendia, conversamos longamente sobre muita coisa: carreira internacional, Stock, Super Clio, monopostos, Fórmula 1, família, 2008. Planos e sonhos que infelizmente foram ceifados por um acidente que poderia ter sido evitado.

Aliás, como muitos outros não só em 2007 como neste ano - vide o que aconteceu na última prova da Stock Car com Felipe Maluhy e Norberto Gresse Fº. Um acidente que deixou marcas na pele do piloto da Nova/RR, com queimaduras no rosto. E que além do perigo causado pela explosão do tanque de gasolina, mostrou também a fragilidade das equipes de resgate e principalmente dos seus equipamentos, com aqueles extintores ridículos que não conseguiram controlar o fogo.

Não adianta só os pilotos terem consciência também dos riscos inerentes a uma competição automobilística - e muitos estão longe de agir como deveriam. Não adianta os organizadores, ou a CBA, ou quem quer que seja, colocar gente que não mostra o mínimo preparo para agir em condições extremas. Falta também cuidado com os nossos autódromos.

É vergonhoso para um país como o nosso, repleto de glórias no automobilismo, ter só duas pistas com reais condições de receber eventos FIA - Interlagos e Curitiba. Brasília tem guard-rails de 1973 (!!!). O Rio está a vergonha que a gente conhece de cor e salteado. Goiânia está jogada à própria sorte. Tarumã é um circuito maravilhoso mas está ultrapassado. Santa Cruz nasceu com um bom traçado, mas sérios problemas de segurança. Campo Grande não tem estrutura. Cascavel e Guaporé foram esquecidos. E melhor nem falar de Fortaleza e Caruaru…

É necessário que os autódromos hoje sucateados saiam da mão de governantes, assim como ocorre no Rio de Janeiro. Mas em tempos de crise, todo mundo vai pensar duas vezes antes de investir ou tomar uma iniciativa de grande porte. E vida que segue…

Agora, a pergunta que não quer calar: um ano se passou… e aí? O que mudou no automobilismo brasileiro?

Cartas para a redação.

Mudança de planos tira Lucas di Grassi da F-1

Ter, 02/12/08
por Rodrigo Mattar |
categoria Fórmula 1, Opinião

Pelo menos em 2009, o piloto Lucas di Grassi não terá a oportunidade de ser piloto titular de Fórmula 1. Os três dias de treinos em Barcelona bastaram para que a Honda dispensasse seus serviços - e a decisão de chamar só Bruno Senna para as sessões que acontecerão em Jerez foi a senha para isso.

Mas o sobrinho do tricampeão Ayrton Senna não estará sozinho: a Honda mudou os planos e vai colocar Rubens Barrichello em confronto com Bruno Senna, uma vez que segundo o site Grande Prêmio, a comparação dos tempos de volta de Jenson Button com o estreante brasileiro - que num teste ficou a apenas três décimos do britânico - foi “inconclusiva”.

Assim, nada melhor que avaliar o potencial de Bruno do que uma comparação com aquele que tem hoje o maior número de GPs da Fórmula 1. E tem mais: existe uma divisão dentro da equipe, o que é ruim para uma escolha como essa. Ross Brawn não esconde de ninguém que prefere continuar trabalhando com Rubens Barrichello. E Nick Fry, que nunca morreu de amores por ele, não tem dúvidas que Bruno Senna pode ser um bom substituto.

Eu só lamento que não exista um lugar para Lucas di Grassi em 2009. Para mim, fica claro que por não ter um sobrenome de peso, como Piquet e / ou Senna, ele enfrenta toda essa dificuldade para ser titular em qualquer equipe de Fórmula 1. Talento ele tem, de sobra. Já mostrou isso por onde passou, do kart à GP2 e neste ano, ajudou a escuderia espanhola Campos a ser a melhor do ano. O que mais os dirigentes precisam saber para perceber que ele é um piloto de grande potencial?

Aí é que entra o problema: o pai dele, Vito di Grassi, comerciante do ramo de armamentos, me confessou no Capacete de Ouro que nunca pensou ser tão difícil “negociar” com os homens da Fórmula 1. Quando o talento fica em segundo plano, como agora, o dinheiro fala mais alto. E só agora, em 2008, Lucas contou com o apoio de um patrocinador brasileiro, o que é muito pouco.

O torcedor brasileiro vai perder a chance de ter um talento em potencial em detrimento de um sobrenome que é “mágico”, mas de um menino que para mim ainda não está pronto para tamanho desafio. Torno a repetir que se a Honda escolher Bruno Senna como titular em 2009, terá dado um grande tiro no pé. E que a decisão vai ser um risco para a carreira do próprio piloto na Fórmula 1.

Querela mal-resolvida

Dom, 30/11/08
por Rodrigo Mattar |
categoria Kart, Opinião

podiodesafio.jpgNeste domingo, tive o prazer de comentar com o companheiro e revelação de narrador Bruno Souza o 4º Desafio Internacional das Estrelas de Kart. Gravamos a primeira corrida para exibição quarta no Grid Motor e fizemos a segunda ao vivo no Sportv - uma responsabilidade e tanto!

O evento, cuja realização chegou a ser criticada por alguns coleguinhas jornalistas, foi um bálsamo, um afago no ego do povo catarinense, triste e arrasado pelas fortes chuvas que castigam o estado. O povo brasileiro está ajudando com o que pode e o que tem e nós apoiamos toda e qualquer causa para colaborar com os desabrigados - inclusive incentivar a realização do Desafio Internacional das Estrelas.

Felipe Massa já tinha dito isso na sexta-feira e neste domingo, com o comparecimento em peso de um público estimado em 12 mil torcedores, o Desafio mostrou sua força fora e principalmente dentro da pista, com duelos inenarráveis e inesquecíveis.

A primeira bateria foi sensacional, com um pega homérico entre Vitantonio Liuzzi, Michael Schumacher, Lucas di Grassi, Rubens Barrichello e Thiago Camilo. O piloto da Stock Car, com seu porte avantajado de 1,88 metro de estatura, foi a grata surpresa do Desafio, andando forte até perder contato com os líderes. Depois, Liuzzi, que liderava, vacilou e foi ultrapassado. O italiano, campeão mundial de Kart em 2001, desistiu da corrida e depois da segunda bateria em razão de uma pancada que o machucou nas costelas.

Por falar em pancada, Rubens Barrichello danificou o kart de Michael Schumacher quando este errou à sua frente. Depois, o piloto da Honda ainda passou Lucas di Grassi numa manobra ousada e venceu a corrida já sob uma forte pancada de chuva.

Na segunda prova, com grid invertido, Xandinho Negrão foi o pole mas Felipe Giaffone, uma fera em qualquer tipo de carro, passou o piloto que disputou o FIA GT. Felipe Massa fez o mesmo e mais tarde, com classe, superou seu xará para vencer e levar a galera que lotou arquibancadas e camarotes ao delírio.

Já no pelotão intermediário, saiu faísca na briga entre Schumacher, di Grassi e Barrichello. E é aí que quase morou o perigo do evento.

Tudo bem que o Desafio Internacional das Estrelas, mais do que em todos os outros anos, teve um caráter beneficente e festivo ao mesmo tempo. Mas é da natureza da “pilotada” não querer perder nem em par ou ímpar. Por isso, alguns dos competidores saíram criticando uns aos outros. O alvo da vez foi Rubens Barrichello, que com o 5º lugar na segunda corrida, derrotou Lucas di Grassi por um ponto e levou o título do evento.

Michael Schumacher, o antigo companheiro de equipe com quem o brasileiro troca farpas há algum tempo, não economizou nas palavras: “Barrichello é assim. Reclama quando perde e quando ganha”. O piloto da Honda na temporada 2008, em vez de sorrir, recebeu o repórter Carlos Gil, que participou de nossa transmissão, de cara amarrada e soltando cobras e lagartos para o alemão e também para Lucas di Grassi: “Ele (Lucas) me botou pra fora”, protestou.

O piloto de testes da Renault contemporizou dizendo que Schumacher também exagerou um pouquinho na disputa, mas lembrou que Barrichello não deveria ficar tão bravo porque foi o vencedor.

Só acho que não seria necessária a frase que Rubens proferiu no fim da primeira bateria, dizendo que a fita da corrida tinha que ser mandada para a Honda. Se a equipe não o quer mais na Fórmula 1, é bom que Barrichello se conforme. Ele é um excelente piloto, provou isso em toda sua carreira, guia muito nos micromonopostos, mas saber perder e principalmente saber parar faz parte do show.

E essa palhaçada dele com Michael Schumacher já está ficando muito chata. Parte da culpa é da imprensa, que fica dando uma de “Mexericos da Candinha” e fazendo tudo pra jogar um contra o outro. Não basta o que já aconteceu com o brasileiro nos anos em que conviveu com o alemão da Ferrari? Se ele quiser contar a verdade, ou a versão dele sobre seus anos em Maranello, o problema é dele. Se ele acha que vai ficar com a consciência bem resolvida e dormir em paz, ótimo.

Eu sei que não tenho nada a ver com isso. E quero aqui dar os parabéns ao Felipe Massa, por ter feito um evento tão bacana quanto o Desafio Internacional das Estrelas e, principalmente, por querer ajudar o povo catarinense que vem sofrendo tanto.

Momento de reflexão

Sex, 28/11/08
por Rodrigo Mattar |
categoria Opinião

Bom dia a todos!

Sei que há questões muito freqüentes acerca da realização ou não do Desafio Internacional das Estrelas, neste fim de semana em Florianópolis - para onde, aliás, estou indo hoje numa viagem bate-e-volta - pois fazemos no sábado a transmissão da GT3 Brasil e no domingo a última etapa do campeonato e também as duas provas do evento promovido por Felipe Massa para o Sportv.

Porém, é preciso lembrar que um evento como esse há estava com a estrutura pronta e que possivelmente iria perder muito do seu brilho se fosse adiado, por exemplo, para o outro domingo. Vai que Michael Schumacher, a grande atração, não pudesse ficar por aqui por mais uma semana, não é?

O momento é de reflexão, mas também de levantar o moral do cidadão catarinense, arrasado que está pelas constantes chuvas que assolaram o estado, numa tragédia semelhante ou maior que a de 1983 (quem tem boa memória se lembra que não só Santa Catarina, mas o Sul inteiro, foi devastado pelas águas). Então nada mais justo do que este blog pedir no coração de cada um de vocês que ajudem - direta ou indiretamente - a toda população atingida de Santa Catarina, para que consigam dar a volta por cima e superar esse triste episódio.

O momento, mais do que nunca, é de união.

Bom dia a todos!

Melancolia pouca é bobagem

Seg, 24/11/08
por Rodrigo Mattar |

20081123_000691.jpgDe 2004 a 2007, eu sempre estive presente nas Mil Milhas. Apaixonado por corridas de Endurance, fui pra Interlagos atraído pelo fascínio e pelas histórias que eu conhecera de outras edições da prova, através de pilotos lendários e jornalistas idem.

Me emocionei quando encontrei alguns personagens desses fatos e estreitei laços de amizade com toda gente do automobilismo ao longo desses anos, em dias, noites e madrugadas fantásticas. Foi numa dessas Mil Milhas, a de 2006, que eu conheci por exemplo a excepcional figura que é o Luiz Alberto Pandini, afora muitos outros que a memória não recorda.

Em 2004 e 2005, fui apenas pra assistir e vi o Viper da equipe Racing Box ganhar com folga no primeiro ano e o incrível Audi TT-R importado por Xandy Negrão vencer no outro. No ano seguinte, como o Sportv teve um envolvimento razoável com o evento, entrei de produtor ao lado do ótimo repórter Tiago Leifert. Fizemos várias matérias, entradas ao vivo na programação e um compacto especial da corrida, que comentei ao lado do Jota Júnior.

Ano passado, fui de novo na condição de espectador privilegiado, mas abastecendo meu antigo blog, o Saco de Gatos, com notícias e fotos do fantástico evento que foi a prova de 2007. Tinha poucos carros, é verdade, mas o nível técnico foi sensacional e ver os Peugeot 908 HDi FAP massacrarem o recorde da prova foi um privilégio. Além de poder ouvir o ronco (ou seria trovão?) do motor V-8 do Corvette C6-R, o som sensacional do motor Audi dos Spyker, afora os outros grandes carros que por aqui pintaram.

Muito bem: passado o impacto positivo das duas últimas edições sob a batuta de Antonio Hermann como organizador, a expectativa seria por algo semelhante. Porém, a Le Mans Series excluiu o Brasil do calendário e, diante desta negativa, era de se esperar que houvesse um plano B. Esse plano existia, mas contemplava a Grand-Am com seus protótipos tubulares dotados de motores de série. Estética e competitivamente, nem se comparam à LMS. Mas era uma boa solução.

Só que negociar com gringo é difícil. Ainda mais com um país mergulhado na recessão e cujas equipes trabalham com planejamento e orçamento dirigidos para 14 corridas em território estadunidense. Brasil? Nem pensar.

A solução final foi trabalhar com um regulamento “aberto” a exemplo do que ocorreu em 2006, mas as principais equipes do exterior ou já encerraram suas atividades ou estavam envolvidas com outras competições, como o FIA GT que disputava na Argentina sua etapa final - com um público fabuloso em San Luis. Some-se a isso o fato da Stock Car, cujo calendário já se conhecia desde o fim do ano passado, realizar uma prova em Tarumã - o que tirou possíveis equipes e pilotos da prova.

Por isso, não foi surpresa nenhuma o vazio completo reinar em Interlagos ao longo do evento. Zero de público, zero de divulgação, quase zero de participação de boas escuderias. Excetuando-se o esforço da Stuttgart Sportcar de Dener Pires, da Old Boys de Eduardo Souza Ramos, da família Mello Pimenta, da Scuderia Tekprom do Rio de Janeiro e dos bons valores que guiaram os Maserati, além de um ou outro carro com bom nível de preparação, a corrida foi um triste retrato do que ela já foi um dia.

Esta postagem não é pra meter o sarrafo no Antonio Hermann. Até porque gosto dele, não tenho nenhum problema com ele, nosso relacionamento sempre foi muito bom - e foi ele quem me disse, em primeira mão, que as Mil Milhas seriam válidas para a Le Mans Series ano passado. Acho que ele precisa se conscientizar de que a prova tem uma história, um passado repleto de grandes momentos e que vale - muito - a pena resgatar o prestígio do evento.

Acho que o grande erro para este ano foi realizar as Mil Milhas praticamente ‘nas coxas’, como se diz no popular. Era melhor repensar, planejar e fazer bem-feito em 2009. Não interessa se a FASP já promove para janeiro o chamado GP São Paulo, que é uma prova longa nascida para suprir a brecha deixada pela própria Mil Milhas.

A corrida idealizada por Wilson Fittipaldi, o Barão, merece toda nossa consideração. Merece ser bem-tratada, bem organizada e ter o glamour que imperou na maioria de suas edições. Arregaçar as mangas para termos em 2009 um evento à altura de suas tradições é o grande desafio que Antonio Hermann tem que se impor. A partir de ontem, de preferência.

Do contrário, vai ser duro agüentar tanta melancolia como se viu em Interlagos no domingo.

Farsa jornalística

Sex, 24/10/08
por Rodrigo Mattar |
categoria Fórmula 1, Opinião

Quando comecei a acompanhar o automobilismo mais detidamente, lá por 78 / 79, minhas referências eram Reginaldo Leme, Janos Lengyel, Marcus Zamponi, um ou outro nome que a memória já não guarda, e Lemyr Martins.

Este último era o correspondente da revista Placar para assuntos automobilísticos, com ótimas fotos e textos feitos por terceiros (Raul Quadros, hoje comentarista do Sportv foi um deles), lidos toda semana em que a revista tinha corrida e ia para as bancas. Quando a Placar deixou de cobrir F-1 e dar uma ênfase maior ao futebol, lá se foi o Lemyr para a Quatro Rodas.

O tempo passou, passou e passou. Há alguns anos, ele publicou um livro editado pela Panda Books, chamado “Os Arquivos da Fórmula 1″. Comprei e de saída notei alguns erros que acreditei ser de revisão, perfeitamente normais numa publicação com tantos dados compilados. Depois, o mesmo jornalista escreveria “A Saga dos Fittipaldi”, uma colcha de retalhos - mas com ótimas histórias - sobre a família número 1 do esporte a motor do Brasil.

Confrontando algumas coisas ali escritas com o livro biográfico de Emerson com o jornalista estadunidense Peter Golenbock, novamente notei algumas coisas bastante contraditórias - mas de ambas as partes, porém.

Agora ele exagerou na dose: sua terceira publicação, chamada “Histórias, Lendas, Mistérios e Loucuras da Fórmula 1″ traz a reprodução de um suposto diálogo entre Jean Todt e Rubens Barrichello, via rádio, no famoso 11 de maio de 2002 - o GP da farsa em que o brasileiro tirou o pé na reta final para deixar Michael Schumacher passar.

Da página 71 à 77, o leitor (não, eu não comprei o livro!) que quiser arriscar contemplar tamanha pérola, lerá a inverossímil história que envolve até o seqüestro (!!!!) de D. Idely, a mãe de Rubens Barrichello, que estaria vendada e em poder dos italianos - como se estes fossem da Cosa Nostra.

Aos mais incautos: Lemyr vendeu gato por lebre, pois o solerte Ivan Capelli descobriu que o texto, na íntegra, era uma brincadeira que circulava em fóruns da internet desde 16 de maio daquele ano. Além do mais, a mãe de Barrichello nem tinha como estar em poder dos italianos. Ela torcia pelo filho em São Paulo, onde a família reside. E era, também, o Dia das Mães…

Ao tornar “verídica” essa disparatada versão de como Barrichello foi “coagido” a ceder a vitória a Michael Schumacher no GP da Áustria de 2002, Lemyr Martins faz o leitor de otário. E deixou muita gente do meio ficar indignada com a cara-de-pau em publicar uma situação tão estapafúrdia para poder atingir as vendagens que por certo seus dois livros anteriores não conseguiram.

Talvez ele tenha escrito isso até para incluir a situação como uma “lenda” ou uma “loucura” para fazer jus ao título da publicação. Mas não sei não… prefiro encarar a história com reservas e deixar ao leitor o benefício da dúvida. O mesmo que me faz perder um pouco do respeito que eu tinha ao Lemyr Martins.

Malandragem à brasileira dá cana nos EUA

Sáb, 04/10/08
por Rodrigo Mattar |
categoria IRL, Opinião

Ficou muito feio para Hélio Castroneves o panorama nesta semana pré-Petit Le Mans, onde o piloto brasileiro estava inscrito para correr com um Porsche da Penske Motorsports. Pipocaram na imprensa estadunidense notícias de que o bicampeão de Indianápolis, sua irmã Katiuscia e o advogado Alan Miller estão envolvidos num desvio fiscal na ordem de US$ 5 milhões - entre 1999 e 2004.

O piloto foi à corte de Miami com mãos e pés algemados, onde prestou depoimento dizendo-se “inocente” das acusações. Durante o começo da audiência, Helinho, provavelmente sentindo a consciência pesando, chorou muito.

A justiça pré-determinou que Helinho não poderá deixar o território dos EUA enquanto o processo estiver correndo, o que significa que ele está fora da corrida extracampeonato da IRL em Surfers Paradise, na Austrália. Ato contínuo, durante a audiência o brasileiro entregou seu passaporte.

Helinho, que pode pegar até 35 anos de “cana”, foi liberado mediante uma fiança de salgados US$ 10 milhões. A irmã Katiuscia também pagou seu preço: US$ 2 milhões. A Alan Miller, coube a fiança de US$ 250 mil.

Cá pra nós: se isto é o topo do iceberg de falcatruas, imagine o que não aconteceu nos anos anteriores. Um amigo meu, cujo nome não vou revelar, garante que se juntar testemunhas para exigir dele o que lhe devem, lotam um avião.

Que coisa, não?

A coisa tá preta…

Ter, 30/09/08
por Rodrigo Mattar |
categoria Fórmula 1, Opinião

piqj_rena_08pre.jpgNem sempre carregar um sobrenome campeão do mundo é sinônimo de sucesso no esporte. Nelson Ângelo Piquet tem a responsabilidade de seguir os passos do pai, que por três vezes chegou ao topo na Fórmula 1. Mas, sem dúvida, ele tem sido uma das grandes decepções - senão a maior de todas - da temporada 2008.

Em 15 corridas que disputou, abandonou em mais da metade delas. Fez 13 pontos, tendo como melhor resultado um 2º lugar no GP da Alemanha, em Hockenheim. Sua melhor posição num grid de largada foi uma 7ª posição - sendo que só passou quatro vezes para a Q3. E em seis ocasiões, sequer passou da Q1 nos treinos oficiais.

É pouco. Muito pouco mesmo, para quem prometia tanto depois de campanhas vitoriosas no kart, na Fórmula 3 Sul-Americana, Fórmula 3 inglesa e na GP2, onde só perdeu para Lewis Hamilton na temporada 2006. E fica a dúvida: o que é que deu de tão errado na campanha do piloto brasileiro em seu primeiro ano de F-1?

Eu apontaria alguns fatores:

Primeiro, a irregularidade do piloto, que nas primeiras corridas pagou pelo preço do noviciado e pela falta de quilometragem com os carros da Renault - pois no ano anterior, sem ter disputado qualquer campeonato, fez o “papel” de piloto de testes e treinou muito pouco.

Segundo, a arrogância que demonstrou no trato com os jornalistas, que lhe conferiu uma grande antipatia da mídia. Quando ele mais precisava justificar seus maus resultados, virava a cara e não falava com ninguém. Agora que a coisa tá feia, ele muda de comportamento?

E terceiro, os erros que norteiam a maior parte de suas desistências. Seis abandonos foram por rodada ou acidente. E dois, somente, por falhas mecânicas. Sem dúvida, algo que depôe muito contra o piloto.

Agora, faltando somente três corridas para a temporada se encerrar, Nelson Ângelo sabe que sua posição na Renault é delicada e seu lugar está mais ameaçado do que nunca, pelos dois jovens valores do RDD (Renault Driver Development): o brasileiro Lucas di Grassi e o franco-suíço Romain Grosjean.

Num comparativo entre os dois postulantes à vaga, Lucas leva vantagem sobre Grosjean. É mais experiente, mais consistente e tem mais rodagem que o piloto que os franceses querem para ocupar a segunda vaga em 2009.

Há uma corrente na Renault que defende uma espécie de “vestibular” entre os dois. Mas os treinos que Lucas realizou em Jerez de la Frontera, antes do GP de Cingapura, foram importantes por dois motivos: ele foi de fato avaliado pelo staff técnico e seu desempenho no circuito espanhol deixou uma impressão muito positiva; e algumas sugestões de acerto foram levadas a cabo pelos engenheiros na corrida oriental.

Até porque Jerez é uma pista com vários trechos de baixa velocidade que requerem uma boa tração nas saídas de curva, fundamental num traçado como o de Cingapura. E tem mais: Lucas di Grassi é um piloto que dificilmente se pauta por erros. E isto é levado muito em consideração na atual Fórmula 1.

Diria eu que Nelson Ângelo Piquet está com os dias contados na Renault. E que, independentemente da permanência ou não de Fernando Alonso na escuderia francesa, acredito que Lucas di Grassi tem grandes chances de ser piloto titular em 2009.

Sem direito de errar

Seg, 29/09/08
por Rodrigo Mattar |
categoria Fórmula 1, Opinião

ferrari-logo.jpgDeixei para hoje o assunto Ferrari. Afinal de contas, como eu sabia por A mais B que os jornais brasileiros e italianos iriam deitar falação e esquecer que Alonso venceu com méritos em Cingapura e Hamilton abriu vantagem na liderança do campeonato, não quis me juntar ao coro e parecer igual a todo mundo.

Embora eu reconheça que é por conta dos inúmeros erros cometidos dentro e fora da pista que a Ferrari vai perder o campeonato mundial de 2008. Entre os pilotos, ainda resta a Felipe Massa fazer seu papel: são sete pontos a descontar em três corridas e Kimi Räikkönen mostrou ano passado que uma reação não é impossível. Sendo que a situação do finlandês era muito, muito pior.

Mas a competição entre os construtores vai pelo ralo, especialmente pelo festival de bobagens que faz a Ferrari reviver o velho casino (bagunça) de outros tempos. Na época de Michael Schumacher, incidentes como este do pit stop de Cingapura e outros tantos ao longo das quinze corridas já disputadas, inexistiam. Afinal de contas, a equipe tinha comando: Jean Todt, Ross Brawn e Rory Byrne. E, bem ou mal, Nigel Stepney coordenando as paradas de boxe.

Por mais que o atual capo, Stefano Domenicali, seja competente, ele não tem o mesmo peso e o mesmo poder de decisão que tinha um Brawn, um Todt. E, cá pra nós, falta estrada a Domenicali para ser respeitado como um grande chefe de equipe, como são Ron Dennis, Flávio Briatore e Frank Williams.

novaferrari.jpgA Ferrari não fez a transição do seu antigo staff para o novo de maneira correta e isto vai se provando um autêntico tiro no pé. O pior é que, nas três corridas finais - Japão, China e Brasil - a equipe ficará sem o direito de errar, sob pena de Felipe Massa perder um campeonato que ele poderá ainda vencer.

Mas que a equipe italiana não merece. De nenhum modo. Tanto que, se o festival de bobagens continuar até a última etapa, já há quem sugira mudar a denominação da mais tradicional escuderia da Fórmula 1 de Ferrari para Errare.

A brincadeira é uma cortesia do Marcos Benther, que me mandou o escudo modificado da marca do Cavallino Rampante.


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