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Quatro décadas de Tropicalismo e AI-5: o que o Brasil perdeu nos anos 60

Qui, 18/12/08
por Rodrigo Mattar |
categoria Música, Opinião

tropicalismo1.jpgO ano de 1968, tido e havido como “o ano que não terminou”, foi fervilhante na cultura e na política do Brasil. Graças a uma discussão de gente do naipe de Gláuber Rocha, Gustavo Dahl, Arnaldo Jabor, Nelson Motta e outros numa mesa de bar em Ipanema, batizou-se o movimento estético que a trupe baiana liderada por Guilherme Araújo e seus pupilos já vinham desenhando nos Festivais da Canção: o Tropicalismo.

Vivia-se naquela época uma constante preocupação da corrente “nacionalista” contra a música alienada, que tinha no iê-iê-iê e no programa Jovem Guarda a sua ponta-de-lança, com Roberto Carlos, Wanderléa e Erasmo Carlos na linha de frente e os demais da turma a lhes seguir. E contra toda esta turma, vinham Elis Regina, Geraldo Vandré e outros que defendiam a música popular brasileira.

Alheios a tudo isso - embora Gil tenha participado da passeata contra as guitarras elétricas (vejam só no que nessa “guerra” foi dar) - os baianos já planejavam o golpe de mestre, graças às influências de Beatles e Jimi Hendrix que mexeriam fundo com a sonoridade das músicas que tanto ele - Gil - quanto Caetano Veloso vinham compondo. “Alegria, Alegria” e “Domingo no Parque” são exemplos claros disso e a partir daí a proposta se amplifica, com outras canções de temática mais agressiva: “Questão de Ordem”, “Divino, Maravilhoso”, “É Proibido Proibir”, e a canção-símbolo do movimento, “Tropicália”.

Eles não estavam sozinhos no barco: Gal Costa também juntou-se aos seus conterrâneos, assim como Tom Zé, Torquato Neto, o maestro Rogério Duprat, Os Mutantes e, pasmem, Nara Leão - que teve um período ligado à Bossa Nova e depois às músicas de protesto no show Opinião em que dividiu o palco com Zé Keti e João do Vale antes de passar o posto para Maria Bethânia.

O Tropicalismo ganhou força com a vitória de Tom Zé no Festival da Música Popular Brasileira, com a boa repercussão das músicas interpretadas por Gal Costa e pelos Mutantes, além - e principalmente - do histórico embate entre Caetano Veloso e um público enfurecido na final da eliminatória paulista do Festival Internacional da Canção de 1968, transmitido pela Rede Globo, em virtude da classificação de “É Proibido Proibir” para a fase nacional no Rio de Janeiro.

“O que me interessa é desclassificar as coisas”, teria dito o baiano antes de entrar no palco do TUCA (Teatro da Universidade Católica de São Paulo). E desconstruir, desclassificar, eram palavras de ordem naqueles tempos tropicalistas. Isto foi provado no disco Tropicália e Panis et Circensis, distribuído pela Philips em 1968 e que dava voz e vez ao movimento.

Embora a música de Caetano já citada neste tópico não fizesse parte do disco, havia “Geléia Geral” (Gilberto Gil / Torquato Neto) para desenhar um retrato alegórico do país, assim como a irônica “Parque Industrial”, de Tom Zé.

Retocai o céu de anil… bandeirolas no cordão… grande festa em toda a nação… despertai com orações… o avanço industrial… vem trazer nossa redenção

O dramalhão também tem vez com uma versão bem-sucedida de “Coração Materno” (Vicente Celestino), interpretada por Caetano Veloso, que compôs com Gil a música “Lindonéia”, entregue para Nara Leão gravar com sua voz delicada em perfeito contraste com as imagens violentas da letra.

Despedaçados atropelados… cachorros mortos nas ruas… policiais vigiando… o sol batendo nas frutas… sangrando

A turminha d’Os Mutantes não ficou de fora: contribuíram em quatro faixas, tocando em “Miserere Nobis”, “Parque Industrial”, “Bat Macumba” e no “Hino ao Senhor do Bonfim da Bahia”. Além deles, o maestro Rogério Duprat deu sua parcela de contribuição nos arranjos e também nos efeitos sonoros (tiros de canhão e sirenes), além de citações inusitadas feito “O Guarani”, de Carlos Gomes, o Hino Nacional Brasileiro e o Hino da Internacional Comunista, usado em “Enquanto Seu Lobo Não Vem”.

Comercialmente, é claro que este foi um trabalho que não vendeu na época, mas as freqüentes manifestações dos baianos e do Tropicalismo na mídia começavam a incomodar um segmento muito forte no país naquele tempo: os militares, que já estavam cabreiros com a classificação de “Pra Não Dizer Que Falei das Flores” para a finalíssima do FIC e iniciavam um patrulhamento cada vez maior nas músicas compostas no Brasil de 1968. Para sorte deles, a canção de Geraldo Vandré, qualificada por muitos como uma ‘afronta’ à pátria, perdeu o primeiro lugar para “Sabiá”, de Chico Buarque e Tom Jobim - sem dúvida de melodia muito mais sofisticada que sua concorrente, mas obviamente um protesto velado contra o domínio da ditadura e a dor do exílio ao qual muitos já vinham se submetendo - Chico inclusive, visto que na época o artista vivia na Itália.

Não bastasse isso, as manifestações se tornavam ainda mais ruidosas e com participação popular em massa, como a famosa “Passeata dos Cem Mil”, que superlotou a Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Outro fato histórico é a reação da população ao assassinato do estudante Édson Luiz, no restaurante do Calabouço, que provocou diversas prisões e uma repressão tremenda da polícia, que baixou o sarrafo em quem quer que fosse: mulheres, homens, crianças, idosos e até grávidas.

Mesmo com o perigo rondando a cada esquina, o Tropicalismo ainda partiu para uma proposta mais ousada: um programa de televisão. E assim surgiu Divino Maravilhoso, exibido pela extinta TV Tupi com direção de Fernando Faro, produção de Antônio Abujamra e concepção de Gilberto Gil e Caetano Veloso. Antes da gravação, sempre às segundas-feiras no bairro do Sumaré, os dois inventavam tudo o que ia ao ar: uma tremenda loucura, como visto na estréia que aconteceu em 28 de outubro de 1968.

No palco, a anarquia foi tanta que Caetano até plantou bananeira e muitos se perguntam como a Censura Federal não mandou cortar o programa. Isso, no entanto, foi fichinha perto da ambientação à la Jesus Cristo e seus doze apóstolos que Gilberto Gil deu para sua “Miserere Nobis”, atirando bacalhaus e frutas para a platéia que assistia à uma outra gravação ao vivo.

Mas o pior ainda estava por vir: no dia 13 de dezembro, o Ato Institucional número 5, redigido pelo então Ministro da Justiça Luís Antônio da Gama e Silva, foi referendado pelo governo Costa e Silva, fechando o congresso, decretando o fim do habeas corpus e cassando em conseqüência disto os direitos políticos de quem fazia oposição ao governo militar. O cerco começou a se fechar também em direção à classe artística e os tropicalistas não eram exceção.

Dez dias depois, em mais um Divino Maravilhoso, já gravado, a gota d’água: Caetano cantou a marchinha “Boas Festas”, de Assis Valente, com um revólver apontado para sua cabeça. A cena brutal foi a senha para que o que vinha se desenhando naquele ano de 68 acontecesse: no dia 27, Gilberto Gil e Caetano Veloso foram presos e levados a quartéis diferentes, onde tiveram suas cabeleiras raspadas antes de serem banidos do país em fevereiro de 1969, pouco depois do carnaval.

A prisão dos dois e o fim do programa, que foi apresentado por Tom Zé durante um curtíssimo espaço de tempo, decretaram o fim do Tropicalismo. Aí fica a pergunta, que abre o leque para várias outras:

O que o Brasil perdeu nos anos 60? A democracia? A sua identidade cultural? A possibilidade de existir uma população menos miserável do que vemos hoje?

Pois o que se seguiu nos quarenta anos seguintes, embora tenhamos recuperado - depois de muito custo - o direito de nos expressarmos ideologicamente, a produção cultural no Brasil caiu. Proliferaram os cantores de música cafona, o que originou o “movimento da Cafonália” em contraponto à Tropicália e o Cinema Novo foi substituído pela pornochanchada de nudez apelativa e bilheteria fácil. O milagre econômico do nefasto governo Médici, celebrado em verso e prosa na época por músicas infames feito “Eu te amo, meu Brasil”, foi o estopim da explosão da dívida externa, a população cresceu e tornou-se na mesma proporção mais analfabeta - mesmo com o Mobral - e mais miserável do que já era em 1968.

Uma realidade que infelizmente persiste até hoje, com o Brasil-Bélgica fulgurante e o Brasil-Índia cada vez mais afundado na lama.

E foi-se o último Jimi Hendrix Experience…

Seg, 17/11/08
por Rodrigo Mattar |

classic3_l.jpgO Experience de Jimi Hendrix agora está todo no andar de cima: morreu no último dia 12, quarta-feira passada, o baterista Mitch Mitchell. Ele tinha 61 anos de idade e perdeu a vida num quarto de hotel em Portland (EUA), onde havia tocado dias antes na Experience Hendrix Tour, onde velhos conhecidos de Jimi Hendrix se juntavam para jam sessions com músicos influenciados pelo guitarrista, como por exemplo o jovem guitarrista de blues Jonny Lang.

Mitchell, nascido em 1947 na cidade inglesa de Middlesex, foi recrutado por Chas Chandler, ex-baixista dos Animals, para formar o Experience de Jimi Hendrix junto com outro músico britânico, Noel Redding. Com um estilo explosivo de tocar e muita versatilidade, ele mostrou grande talento estreando aos 20 anos no disco Are You Experienced?, tocando também em Axis: Bold as Love e em Electric Ladyland.

Quando Hendrix desfez o Experience para tocar com Billy Cox e Buddy Miles (este já falecido), Mitchell ofereceu seus préstimos a outros artistas. Mas rapidamente o projeto de uma banda só com negros pereceu e Jimi o chamou para tocar em Woodstock, no mês de setembro de 1969. Mitch fez parte da banda apelidada Gipsy Sun and Rainbows, onde ele e o guitarrista brilharam intensamente numa apresentação que só começou às 8h30 da manhã de uma segunda-feira, muitas horas depois do prazo previsto para o encerramento do festival.

O Experience voltaria em 1970 na Ilha de Wight, com Billy Cox substituindo Noel Redding (já fora da banda havia anos). A apresentação do power trio, uma das últimas da banda, foi prejudicada pelo som ruim. Pouco tempo depois, Jimi Hendrix morreu em razão de uma overdose de psicotrópicos. O baixista Redding faleceu em 2003.

Em homenagem ao enorme talento de Mitch Mitchell, o clip da semana é de “Jam Back The House”, ao vivo em Woodstock, com solos sensacionais do guitarrista e do batera que fez parte da história do rock and roll.

Um craque da bateria: Edison Machado

Qui, 13/11/08
por Rodrigo Mattar |
categoria Música

edsonmachado1336.jpgNascido no Engenho Novo, zona norte do Rio de Janeiro, Edison Machado é considerado entre seus discípulos e também por dezenas de músicos como um dos maiores bateristas já surgidos no país. Em sua curta vida de 56 anos, iniciada em 1934 e ceifada abruptamente em 1990, ele deixou um legado inesquecível para o samba e os ritmos dele surgidos, como o samba-jazz e a própria Bossa Nova, com seu inconfundível suingue e o estilo de “ataque” do instrumento que tanto dominava.

Edison tomou intimidade rápida com a bateria e também com a vida noturna. Criado no ambiente da gafieira, aos 23 anos gravou o disco A turma da gafieira. Ele não tardou a ingressar no círculo musical da Bossa Nova, inovando no estilo de tocar samba, usando os pratos e o pé direito de uma forma até então jamais vista. O contrabaixista Tião Neto, que mais tarde integraria o grupo de Sérgio Mendes (com quem Edison gravaria o álbum E você ainda não ouviu nada, de 1962), disse textualmente que “o tempo dele no samba no prato e no pé direito é irreprodutível. Ele tinha um suingue fantástico.”

Edison fez parte também do lendário conjunto Bossa Três, gravando três álbuns antes de ir para estúdio em 1964 para o primeiro registro gravado onde a estrela máxima era ele: Edison Machado é samba novo (CBS / Sony Music) tem um valor inestimável para a música brasileira, em razão de suas inspiradíssimas versões para “Nanã”, “Aboio”, “Se você disser que sim”, “Quintessência” e “Menino travesso”. Um grande clássico da MPB, pilotado por um craque das baquetas, com o auxílio luxuoso de J. T. Meirelles (sax tenor - o mesmo do famoso grupo Meirelles e os Copa 5), Tenório Júnior (piano), Tião Neto (baixo), Paulo Moura (sax alto), Pedro Paulo (trompete), Raul de Souza e Edson Maciel (trombone). Como se vê, só feras!

Daí pra diante, ele tocou com os mais variados artistas da MPB, incluindo a turma de nível internacional, como o maestro Tom Jobim, Stan Getz e Milton Nascimento. Edison tem seu nome na ficha técnica de discos de Nara Leão (ele tocou no show Opinião), Elis Regina, Johnny Alf, João Donato, Wanda Sá, Luiz Carlos Vinhas, Edu Lobo, Maria Bethânia, Dick Farney, Victor Assis Brasil, Rosinha de Valença e Agostinho dos Santos.

Ele também formou com Dom Salvador (piano) e Sérgio Barroso (baixo) o Rio 65 Trio, projeto de curta duração e com apenas um álbum: A hora e a vez da MPM. MPM era sigla para Música Popular Moderna, uma espécie de estuário onde desaguariam os estilos derivados da Bossa Nova, que já tinha conhecido o seu fim.

Entre 1970 e 1971, montou o Quarteto Edison Machado e pelo desconhecido selo Stylo, lançou dois álbuns intitulados Obras. Seus músicos acompanhantes eram Ion Muniz (sax), Edson Maciel (trombone), Haroldo Mauro Jr. (piano) e Ricardo Pereira dos Santos (baixo). Cinco anos mais tarde, fixou residência nos Estados Unidos, tocando também com Chet Baker e Ron Carter até voltar em 1990 para uma curta temporada na Boate People, no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro.

Porém, em 15 de setembro daquele ano, três meses depois dos shows cariocas, Edison Machado faleceu vítima de um infarto fulminante em Niterói. Foi-se o músico e o ser humano, ficaram na memória as incríveis performances pra sempre lembradas por quem gosta de música brasileira de verdade.

O adeus da “Mama África”

Seg, 10/11/08
por Rodrigo Mattar |

A música despede-se da sul-africana Míriam Makeba, falecida neste fim de semana aos 76 anos, na Itália. Ela teve uma parada cardíaca após um show realizado em Nápoles em benefício de um escritor ameaçado de morte pela Máfia. Míriam cantou durante meia hora para um público calculado em mais de mil espectadores e no bis, desmaiou e caiu dura no palco. Levada a um hospital, não resistiu.

Símbolo da resistência anti-apartheid, ela se auto-exilou fora da África do Sul por 31 anos, até que Nelson Mandela, já libertado, a convenceu a voltar. O líder negro a chamava de “Mama África” por conta do seu engajamento e porque “cantava para a verdade”.

Um dos seus maiores sucessos, estouro internacional, foi “Pata Pata”, a dançante música que ela gravou em 1956 e fez parte de dezenas de trilhas sonoras, inclusive da minissérie Anos Rebeldes da TV Globo. Então, nada mais justo do que homenagear Míriam Makeba com o clip da sua música inesquecível.

O eterno Maluco Beleza (*)

Sex, 24/10/08
por Rodrigo Mattar |
categoria Música

128551541_eee7630237_o.jpgMuito já foi dito e ainda será escrito sobre Raul Seixas.

O baiano mais abusado do rock and roll brasileiro deixou órfãos milhares de fãs e um legado inesquecível.

E pensar que no Nordeste quase ninguém sabia o que era aquilo que aquele magrelo topetudo tanto gostava, nos idos anos 60. A ponto de fundar em Salvador um fã-clube do rei do rock Elvis Presley e tentar sobreviver na carreira artística como crooner de uma banda chamada Raulzito e os Panteras.

Nessa época de sucesso remoto, Raul e seu grupo gravaram um disco pela Odeon, que resultou em nada. Entre descrente e decepcionado, o baiano voltou a Salvador e logo veio para o Rio de Janeiro, trabalhar como produtor de discos de artistas como Jerry Adriani, Renato e seus Blue Caps e o Trio Ternura na CBS.

Em 1971, gravou com a participação de Sérgio Sampaio, tão magro e abusado quanto ele, o álbum “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta: Sessão das Dez”. Gastou muito mais do que o previsto no orçamento de produção. Perdeu o emprego na CBS. E foi nessa mesma época que surgiu Paulo Coelho (ele mesmo, o mago) no caminho de Raul Seixas.

Paulo fazia uma revista hippie underground chamada 2001 e um de seus artigos (todos escritos por ele, com pseudônimos) chamou a atenção de Raul, que um belo dia o convidou para escrever uma letra. Sem experiência no assunto, Paulo Coelho voltou com o que o Maluco Beleza descreveria como um “bestialógico hippie e absurdo”. E combinaram de fazer, juntos, letra e música.

O que se viu a partir daí foi o surgimento de Raul Seixas como o rei do rock and roll brasileiro.

Na última edição do já decadente Festival Internacional da Canção, em 1972, eis que o Maracanãzinho é surpreendido quando o baiano canta “Let Me Sing, Let Me Sing”, uma mistura explosiva de rock com baião. O povo delira e canta, vendo o magrelo topetudo rebolar como Elvis Presley e xaxar à la Luiz Gonzaga.

Let me sing, let me sing

Let me sing my rock and roll

Let me sing, let me sing

Let me sing my blues and go

Tenho quarenta e oito quilo certo

Quarenta e oito quilo de baião

Não vou cantar como a cigarra canta

Pois desse meu canto eu não me abro mão

Ele também inscreveu e classificou outra música - “Eu sou eu, Nicuri é o Diabo”. E a participação de Raul no FIC foi um espanto. De repente, todo mundo queria saber de onde vinha aquele talento todo, aquela força toda. André Midani, sempre ele, não pensou. Com a ajuda de Roberto Menescal, ofereceu-lhe um contrato e ele foi integrar a “seleção nacional da música” na Philips. Para experimentar, dois compactos: o primeiro com “Let Me Sing, Let Me Sing” e o segundo com “Ouro de Tolo”.

“Ouro de Tolo” estourou no país inteiro e Raul caiu no gosto popular. Fez uma apresentação memorável no Phono 73 no Anhembi, pintando pela primeira vez no próprio corpo o símbolo da Sociedade Alternativa. Gravou o disco “Krig-Ha Bandolo” e rapidamente se transformou num campeão de vendagens.

Mas a Philips não fazia idéia do que Raul e Paulo Coelho tinham em mente. Eles queriam fazer da Sociedade Alternativa algo além do símbolo que o roqueiro pintara na própria tez com tinta vermelha. O problema é que a Sociedade Alternativa era totalmente anarquista e baseada na doutrina satanista de Aleister Crowley.

Chegaram a pensar em construir em Minas Gerais a comunidade alternativa Cidade das Estrelas. O movimento foi porém considerado subversivo pelo governo militar. Raul, Paulo e suas respectivas esposas foram “convidados a se retirar” do Brasil e foram morar nos EUA.

Voltaram ao país em meados de 1974 e abriram o leque para o mistiscismo oriental. Sob a égide do Bhaghawad-Gitâ, lançaram “Gita”, com a faixa-título puxando o disco de maior repercussão na carreira do roqueiro. Raul virou figurinha fácil no Fantástico, da Rede Globo, e uma das músicas do álbum entrou na trilha sonora da novela “O Rebu”.

Cada vez mais empapuçado de drogas (cocaína e outros baratos), Raul foi convidado e aceitou participar do festival Hollywood Rock, produzido por Nelson Motta e que aconteceu no verão de janeiro de 75 no campo do Botafogo, em General Severiano. Com uma banda excepcional formada por Fredera (guitarra, ex-Som Imaginário), Gustavo Schroeter (bateria, futuramente d’A Cor do Som) e Arnaldo Brandão (baixo, futuramente compositor e vocalista do Hanói-Hanói), Raulzito arrebentou no encerramento do festival e levou a platéia à loucura quando ao final de “Sociedade Alternativa”, pegou um papiro e, em alto e bom som, iniciou um discurso sobre as leis anarquistas.

Discurso que, diga-se, está registrado no filme Ritmo Alucinante, dirigido por Marcelo França.

A lei do forte

Essa é a nossa lei

E a alegria do mundo

Faze o que tu queres, que há de ser tudo da lei

Faze isso e nenhum outro dira não

Pois não existe Deus se nao o homem

Todo o homem tem o direito de viver a não ser pela sua própria lei

Da maneira que ele quer viver

De trabalhar como quiser e quando quiser

De brincar como quiser

Todo homem tem direito de descansar como quiser

De morrer como quiser

O homem tem direito de amar como ele quiser

De beber o que ele quiser

De viver aonde quiser

De mover-se pela face do planeta livremente sem passaportes

Porque o planeta é dele, o planeta é nosso

O homem tem direito de pensar o que ele quiser, de escrever o que ele quiser

De desenhar de pintar de cantar de compor o que ele quiser

Todo homem tem o direito de vestir-se da maneira que ele quiser

O homem tem o direito de amar como ele quiser

Tomai vossa sede de amor, como quiseres e com quem quiseres

Há de ser tudo da lei

E o homem tem direito de matar todos aqueles que contrariarem a esses direitos

O amor é a lei, mas amor sob vontade

Os escravos servirão

Loucura não? Em pleno governo Médici, terror comendo solto, prisões e torturas, e Raul solta esse petardo - ainda mais num show de rock? Coincidentemente, a partir daí sua carreira entra em fase irregular.

Nesse mesmo ano ele lançou “Novo Aeon”, que ele confessou anos mais tarde ser o seu disco predileto. Tinha realmente faixas muito boas como “Rock do Diabo” e “Tente Outra Vez”, mas alguma coisa já faltava. Depois de mais um álbum - “Há 10 Mil Anos Atrás”, brigou com Paulo Coelho, que já fazia letras para Rita Lee.

Com um novo parceiro - Cláudio Roberto - lançou mais um bom disco, “O Dia em que a Terra Parou”. Mas as gravadoras passaram a boicotá-lo e ele ressurgiria com a música “Carimbador Maluco” (Plunct Plact Zuumm), do especial infantil homônimo exibido pela Rede Globo. Mas as drogas e o álcool o punham cada vez mais à nocaute.

Seus últimos hits foram “Cowboy Fora da Lei” e “Pastor João e a Igreja Invisível”, este último com Marcelo Nova, que tinha em Raul sua referência-mor no rock and roll e com quem compunha em parceria no disco “A Panela do Diabo”.

Lamentavelmente, aos 44 anos, num final à Elvis Presley, Raul Seixas faleceu de complicações ligadas ao álcool. E como acontece com todo artista que desperta curiosidade nos fãs mais jovens, o baiano continua cultuado. O “Baú do Raul” segue revirado em busca de novas canções que o tempo não apaga. E o magro abusado continuará sempre sendo essa “Metamorfose Ambulante”. Com opinião sempre formada sobre tudo. Inclusive o infinito.

“Já me borrei de tanto rir ouvindo

O infinito sendo explicado

Se sendo é um verbo

Prefiro ficar sendo calado”

(Raulzito)

(*) texto originalmente publicado no blog Saco de Gatos em 13 de fevereiro de 2006.

Luiz Carlos da Vila, de Ramos, do Rio de Janeiro…

Ter, 21/10/08
por Rodrigo Mattar |

A música brasileira e o samba do Rio de Janeiro estão de luto: morreu Luiz Carlos da Vila, compositor de “Kizomba, Festa de Uma Raça”, enredo com o qual a Vila Isabel foi campeã do carnaval de 1988 em desfile histórico.

Para minha absoluta surpresa, descobri hoje ao ler o jornal que Luiz Carlos nasceu em Ramos - bairro onde vivi minha infância e até os 30 anos de idade, quase - um berço de bambas como Pixinguinha, Alcebíades Barcelos (Bide) e Mestre Marçal, só pra começar. É em Ramos que fica a sede da Imperatriz Leopoldinense, fundada por, entre outros, Heitor Villa-Lobos e Mano Décio da Viola.

Luiz Carlos é da turma que fez muito samba bom à sombra da tamarineira do Cacique de Ramos, como também aconteceu com a rapaziada do Fundo de Quintal e Zeca Pagodinho, que é de Xerém, como todo mundo sabe. Com músicas gravadas por diversos artistas - só Beth Carvalho botou voz em 30 composições - Luiz Carlos também fazia seus showzinhos por aí.

Um deles é o do vídeo abaixo, uma homenagem deste blogueiro a quem fez parte da história de um dos ritmos mais populares do país, como ninguém.

Afinal de contas, como diz um de seus sucessos, “o show tem que continuar”.

Desperta, Cartola! Vem pra avenida!

Sáb, 11/10/08
por Rodrigo Mattar |
categoria Música

cartola1.jpgAngenor de Oliveira, o imortal Cartola, se vivo fosse, comemoraria 100 anos de idade neste dia 11 de outubro. Falecido em 1980 aos 72 anos de idade, saboreou por menos de uma década a glória de gravar meia dúzia de discos que entraram para a história da MPB.

Felizmente eu tenho o trabalho dele que tem “Alvorada”,  ”O Sol Nascerá” e a lindíssima “Tive Sim”, composta em parceria com Cyro Monteiro, e que é um primor de produção, arranjos, melodias - uma obra-prima sem tirar nem pôr. E pensar que, anos antes do lançamento deste álbum, Cartola estava trabalhando na Zona Sul como lavador de carros. Quem o tirou desta situação desagradável foram o cartunista Lan e o cronista Sérgio Porto.

Redescoberto para a vida artística, teve muitas de suas músicas compostas nos anos 40 regravadas por vários cantores e cantoras. E o restaurante Zicartola, que abriu com Dona Zica na Rua da Carioca, tornou-se um ponto de encontro para quem apreciava uma excelente comida caseira e um samba maravilhoso.

Cartola sempre fez questão de mostrar sua paixão pelo Fluminense e pela Mangueira. Fundador da verde-e-rosa, desfilou pela escola nos bons e nos maus momentos da agremiação. Só que não mereceu da Manga a homenagem que devia receber - embora em 1983 a frase que titula esta postagem fizesse parte dos versos do samba “Verde que te quero rosa”.

No ano do seu centenário de nascimento, a escola recebeu uma verba para fazer um carnaval sobre Recife e o frevo. Quebrou a cara: debaixo de uma chuva torrencial, a Mangueira fez um desfile abaixo da crítica e terminou em 10º e antepenúltimo lugar no carnaval de 2008.

Tamanha ingratidão não cala a fecunda e atemporal obra de mestre Cartola, que tem como destaques absolutos a belíssima “As rosas não falam” e a espetacular “O mundo é um moinho”, que mereceu até uma releitura feita por Cazuza, batizado Agenor em homenagem àquele que continua sendo A referência do samba, da música e, principalmente, da Estação Primeira de Mangueira.

Gigante Brazil

Ter, 07/10/08
por Rodrigo Mattar |
categoria Música

gigante_lepetit.jpgCarioca da gema. Brasileiro de coração. Um gigante da percussão. Este era Jorge Luiz de Souza, o popular Gigante Brazil, um dos maiores bateristas da nossa música contemporânea, lamentavelmente falecido no último dia 29 de setembro em São Paulo. 

Eu só soube do passamento do músico, que tinha 56 anos, após conhecer o blog do Henrique Bartsch, que por diversas vezes postou sobre música no blog da Alessandra Alves, que tem link aqui do lado.

Lá, eu soube que o Gigante foi um ícone da vanguarda paulistana nos anos 80, quando adotou Sampa como sua nova cidade natal. Ele tocou com outro gênio, o saudoso Itamar Assumpção, na banda Isca de Polícia, fez parte do grupo de apoio de Marisa Monte (dividiu com ela os vocais de “Ensaboa”, composta por Monsueto, no disco Mais!, de 1991), além de trabalhar com Gilberto Gil, Jorge Mautner e Caetano Veloso.

O competentíssimo Gigante da bateria fez há dois anos um disco solo em parceria com Paulo Lepetit, com quem divide o instantâneo que ilustra esta postagem: Música Preta Branca etc. é o fiel retrato do que era o músico dentro e fora dos palcos. Uma personagem excepcional, leve e cheio de alegria, que contagiava o público não só com sua voz possante, mas com o suingue que imprimia na percussão.

Vai deixar saudades.

“Forte eu sou… mas não tem jeito…” (*)

Ter, 07/10/08
por Rodrigo Mattar |
categoria Música

A agradável lembrança de Festivais de Música passados - e por favor, deixemos de lado o duvidoso “Festival da Música Brasileira”, realizado pela Globo para comemorar os 40 anos da emissora - gerou até uma enquete no meu antigo blog, o Saco de Gatos, para saber qual canção entre as muitas vencedoras nesse tipo de evento é a melhor dentre todas.

Entre as 10 campeãs, eu tenho minha predileta: “Sinal Fechado”, do grande Paulinho da Viola, vitoriosa num Festival realizado em 1969.

Mas a melhor de todas em todos os tempos, não foi campeã. Foi vice e a história é longa, por vezes mal-contada.

Isto se deu há mais de quarenta anos, em 1967, no II Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro. Que, por sinal, começou polêmico, graças à interferência do secretário de turismo da Guanabara, Carlos de Laet.

Ele cortou três músicas entre as pré-selecionadas pelo comitê de seleção, incluiu outras à revelia dos outros participantes, e mais tarde soube-se graças a um detetive contratado pelos promotores do evento que ele fizera isso para favorecer amigos - inclusive uma vizinha de porta, a pianista Carolina Cardoso de Menezes.

Como Roberto Menescal e Chico Buarque ameaçaram retirar suas músicas, o secretário de turismo foi obrigado a voltar atrás e assim as concorrentes anteriormente eliminadas voltaram ao FIC, que tinha quarenta e seis semifinalistas. Três delas eram de um jovem mineiro de 24 anos, timidíssimo, de Três Pontas, que tinha sido vaiado no Festival da Excelsior um ano antes: Milton Nascimento.

Milton não queria mais saber de festival e suas músicas só foram classificadas graças ao cantor paulista Agostinho dos Santos, que adorou seu trabalho e pediu para que o compositor gravasse três músicas para tirar uma - que seria incluida em seu novo disco. As músicas eram “Maria Minha Fé”, “Morro Velho” e “Travessia”.

Esperto, Agostinho mandou as fitas para a comissão de seleção do FIC - sem que Milton soubesse da artimanha. Augusto Marzagão, o homem-forte do evento, quis conhecer pessoalmente o compositor, mandou passagem e bancou a hospedagem de Milton, que morava na época em São Paulo, para que ele viesse ao Rio. E quando chegou, fez sucesso de cara. Ele teve que tocar “Morro Velho” para Eumir Deodato, Guerra Peixe, Geni Marcondes e muitos outros. Todos choraram… era uma toada lindíssima, uma das mais belas canções de um monstro da MPB que começava a surgir há 40 anos atrás.

Eumir tomou-o pra si como afilhado musical e no Rio, apresentava-o a todo mundo. E começou a elaborar os arranjos de “Morro Velho” e “Travessia”, já que “Maria Minha Fé” seria cantada no FIC por Agostinho dos Santos. E deu-se o seguinte diálogo.

- Eumir, quem vai cantar essas músicas? Eu queria que a Elis (Regina) cantasse uma delas, mas a Record não deixa. Me dá uma idéia aí…

- Eu estou trabalhando com você hoje e já comecei a fazer os arranjos. E vou embora para os Estados Unidos, e não é para voltar. Se você quiser que eu faça algum arranjo, é você quem vai cantar.

- Meu Deus do Céu! Não vou enfrentar 20 mil pessoas no Maracanãzinho!

- Não, você tem que cantar. Vou fazer os arranjos para você cantar.

Milton venceu seu medo e, de smoking (que ele comprou fiado dando como garantia as três músicas inscritas por ele no FIC) entrou no palco montado no Maracanãzinho para cantar “Travessia” em 19 de outubro de 1967. Ele se apresentaria logo depois de Agostinho, com “Maria Minha Fé”, e como o público aplaudiu sua primeira música inscrita, pensou consigo mesmo: ‘Se gostaram de uma, vão gostar de outra’.

Dito e feito. Sua presença atraiu imediatamente o público, que sentiu ali o nascer de um futuro ídolo da música brasileira. Antes mesmo que ele cantasse a primeira frase, aos primeiros acordes do violão, foi delirantemente aplaudido. No refrão, a ovação veio mais intensa e ao final, a consagração.

Quando você foi embora
Fez-se noite em meu viver
Forte eu sou mas não tem jeito
Hoje eu tenho que chorar

Minha casa não é minha,
E nem é meu este lugar
Estou só e não resisto
Muito tenho pra falar

Solto a voz nas estradas
Já não quero parar
Meu caminho é de pedras
Como posso sonhar

Sonho feito de brisa
Vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto
Vou querer me matar

Eu não quero mais a morte
Tenho muito que viver
Vou querer amar de novo
E se não der não vou sofrer
Já não sonho
Hoje faço
Com meu braço o meu viver

Solto a voz nas estradas
Já não quero parar
Meu caminho é de pedras
Como posso sonhar

Sonho feito de brisa
Vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto
Vou querer me matar

Vou seguindo pela vida
Me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte
Tenho muito que viver
Vou querer amar de novo
E se não der não vou sofrer
Já não sonho
Hoje faço
Com meu braço o meu viver

A letra ficou na memória e para a história. Aí fica a pergunta: como “Travessia” pôde perder o título do FIC para “Margarida”, canção composta por Gutemberg Guarabyra (aquele mesmo que formaria a dupla Sá e Guarabyra) e interpretada por ele mesmo, Gracinha Leporace e o Grupo Manifesto?

Simples: o júri deixou-se convencer pela reação do público, que cantava alegremente a estrofe de fácil assimilação: E apareceu a margarida / Olê olê olâ / E apareceu a margarida / Olê , seus cavaleiros. E também pela presença de Gracinha Leporace, que conquistou muitos corações naquele festival - incluindo o de Sérgio Mendes, com quem se casaria depois.

Ignorando o talento e o brilhantismo de Milton, o corpo de jurados cometeu provavelmente uma das maiores injustiças em qualquer Festival de Música realizado neste país, premiando uma canção pueril e que, na fase internacional do FIC, chegou apenas em terceiro lugar. A campeã foi a italiana “Per Una Donna”, interpretada por Jimmy Fontana.

O que se sabe é que nem a Philips, a gravadora de Guarabyra, apostava suas fichas em “Margarida” e a música nunca explodiu. O oposto de “Travessia”, que alavancou a carreira de Milton como astro imediato da MPB e muito antes do que se supunha, levou-o a uma bem-sucedida trajetória internacional, que o tornou um dos mais respeitados cantores e compositores brasileiros de todos os tempos.

E nem cabe, aqui, qualquer comparação entre Milton Nascimento e Gutemberg Guarabyra.

Pois todo mundo sabe que é covardia.

(*) texto originalmente publicado no blog Saco de Gatos em 25 de maio de 2007.

Pausa, mas não de longo prazo…

Qua, 01/10/08
por Rodrigo Mattar |
categoria Música

07761525-ex00.jpgUm dos grupos de que mais gosto, o Red Hot Chili Peppers está dando um tempo nas gravações de discos e nas turnês que varam meses divulgando exatamente os trabalhos de estúdio da banda californiana. O último deles, Stadium Arcadium, de 2006, rendeu shows até o início deste ano.

O baixista Flea qualificou a situação como necessária porque todos os quatro integrantes estão “emocional e mentalmente esgotados”. Ele vai aproveitar a pausa para estudar música na Universidade da Califórnia do Sul.

“É divertido aprender coisas que nunca havia estudado antes”.

O RHCP vem na estrada desde 1983, quando começou com Anthony Kiedis, Flea, Cliff Martinez e Hillel Slovak. Este morreu de overdose em 1988 e Jack Irons, que tinha assumido a bateria, também saiu da banda. A alta rotatividade jamais atingiu Kiedis e Flea, os únicos membros originais. Hoje, o grupo tem também o baterista Chad Smith (desde 1989) e o ótimo guitarrista John Frusciante, que fez dois discos entre 89 e 91, regressando em 1999.

Esta notícia da “pausa” dos Chili Peppers não é boa para a música, que vive uma pasmaceira sem precedentes e crivada pelo emocore de grupos como Fresno, NXZero, Evanescence e outros.

Vai mal o rock and roll…


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