Quatro décadas de Tropicalismo e AI-5: o que o Brasil perdeu nos anos 60
O ano de 1968, tido e havido como “o ano que não terminou”, foi fervilhante na cultura e na política do Brasil. Graças a uma discussão de gente do naipe de Gláuber Rocha, Gustavo Dahl, Arnaldo Jabor, Nelson Motta e outros numa mesa de bar em Ipanema, batizou-se o movimento estético que a trupe baiana liderada por Guilherme Araújo e seus pupilos já vinham desenhando nos Festivais da Canção: o Tropicalismo.
Vivia-se naquela época uma constante preocupação da corrente “nacionalista” contra a música alienada, que tinha no iê-iê-iê e no programa Jovem Guarda a sua ponta-de-lança, com Roberto Carlos, Wanderléa e Erasmo Carlos na linha de frente e os demais da turma a lhes seguir. E contra toda esta turma, vinham Elis Regina, Geraldo Vandré e outros que defendiam a música popular brasileira.
Alheios a tudo isso - embora Gil tenha participado da passeata contra as guitarras elétricas (vejam só no que nessa “guerra” foi dar) - os baianos já planejavam o golpe de mestre, graças às influências de Beatles e Jimi Hendrix que mexeriam fundo com a sonoridade das músicas que tanto ele - Gil - quanto Caetano Veloso vinham compondo. “Alegria, Alegria” e “Domingo no Parque” são exemplos claros disso e a partir daí a proposta se amplifica, com outras canções de temática mais agressiva: “Questão de Ordem”, “Divino, Maravilhoso”, “É Proibido Proibir”, e a canção-símbolo do movimento, “Tropicália”.
Eles não estavam sozinhos no barco: Gal Costa também juntou-se aos seus conterrâneos, assim como Tom Zé, Torquato Neto, o maestro Rogério Duprat, Os Mutantes e, pasmem, Nara Leão - que teve um período ligado à Bossa Nova e depois às músicas de protesto no show Opinião em que dividiu o palco com Zé Keti e João do Vale antes de passar o posto para Maria Bethânia.
O Tropicalismo ganhou força com a vitória de Tom Zé no Festival da Música Popular Brasileira, com a boa repercussão das músicas interpretadas por Gal Costa e pelos Mutantes, além - e principalmente - do histórico embate entre Caetano Veloso e um público enfurecido na final da eliminatória paulista do Festival Internacional da Canção de 1968, transmitido pela Rede Globo, em virtude da classificação de “É Proibido Proibir” para a fase nacional no Rio de Janeiro.
“O que me interessa é desclassificar as coisas”, teria dito o baiano antes de entrar no palco do TUCA (Teatro da Universidade Católica de São Paulo). E desconstruir, desclassificar, eram palavras de ordem naqueles tempos tropicalistas. Isto foi provado no disco Tropicália e Panis et Circensis, distribuído pela Philips em 1968 e que dava voz e vez ao movimento.
Embora a música de Caetano já citada neste tópico não fizesse parte do disco, havia “Geléia Geral” (Gilberto Gil / Torquato Neto) para desenhar um retrato alegórico do país, assim como a irônica “Parque Industrial”, de Tom Zé.
Retocai o céu de anil… bandeirolas no cordão… grande festa em toda a nação… despertai com orações… o avanço industrial… vem trazer nossa redenção
O dramalhão também tem vez com uma versão bem-sucedida de “Coração Materno” (Vicente Celestino), interpretada por Caetano Veloso, que compôs com Gil a música “Lindonéia”, entregue para Nara Leão gravar com sua voz delicada em perfeito contraste com as imagens violentas da letra.
Despedaçados atropelados… cachorros mortos nas ruas… policiais vigiando… o sol batendo nas frutas… sangrando
A turminha d’Os Mutantes não ficou de fora: contribuíram em quatro faixas, tocando em “Miserere Nobis”, “Parque Industrial”, “Bat Macumba” e no “Hino ao Senhor do Bonfim da Bahia”. Além deles, o maestro Rogério Duprat deu sua parcela de contribuição nos arranjos e também nos efeitos sonoros (tiros de canhão e sirenes), além de citações inusitadas feito “O Guarani”, de Carlos Gomes, o Hino Nacional Brasileiro e o Hino da Internacional Comunista, usado em “Enquanto Seu Lobo Não Vem”.
Comercialmente, é claro que este foi um trabalho que não vendeu na época, mas as freqüentes manifestações dos baianos e do Tropicalismo na mídia começavam a incomodar um segmento muito forte no país naquele tempo: os militares, que já estavam cabreiros com a classificação de “Pra Não Dizer Que Falei das Flores” para a finalíssima do FIC e iniciavam um patrulhamento cada vez maior nas músicas compostas no Brasil de 1968. Para sorte deles, a canção de Geraldo Vandré, qualificada por muitos como uma ‘afronta’ à pátria, perdeu o primeiro lugar para “Sabiá”, de Chico Buarque e Tom Jobim - sem dúvida de melodia muito mais sofisticada que sua concorrente, mas obviamente um protesto velado contra o domínio da ditadura e a dor do exílio ao qual muitos já vinham se submetendo - Chico inclusive, visto que na época o artista vivia na Itália.
Não bastasse isso, as manifestações se tornavam ainda mais ruidosas e com participação popular em massa, como a famosa “Passeata dos Cem Mil”, que superlotou a Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Outro fato histórico é a reação da população ao assassinato do estudante Édson Luiz, no restaurante do Calabouço, que provocou diversas prisões e uma repressão tremenda da polícia, que baixou o sarrafo em quem quer que fosse: mulheres, homens, crianças, idosos e até grávidas.
Mesmo com o perigo rondando a cada esquina, o Tropicalismo ainda partiu para uma proposta mais ousada: um programa de televisão. E assim surgiu Divino Maravilhoso, exibido pela extinta TV Tupi com direção de Fernando Faro, produção de Antônio Abujamra e concepção de Gilberto Gil e Caetano Veloso. Antes da gravação, sempre às segundas-feiras no bairro do Sumaré, os dois inventavam tudo o que ia ao ar: uma tremenda loucura, como visto na estréia que aconteceu em 28 de outubro de 1968.
No palco, a anarquia foi tanta que Caetano até plantou bananeira e muitos se perguntam como a Censura Federal não mandou cortar o programa. Isso, no entanto, foi fichinha perto da ambientação à la Jesus Cristo e seus doze apóstolos que Gilberto Gil deu para sua “Miserere Nobis”, atirando bacalhaus e frutas para a platéia que assistia à uma outra gravação ao vivo.
Mas o pior ainda estava por vir: no dia 13 de dezembro, o Ato Institucional número 5, redigido pelo então Ministro da Justiça Luís Antônio da Gama e Silva, foi referendado pelo governo Costa e Silva, fechando o congresso, decretando o fim do habeas corpus e cassando em conseqüência disto os direitos políticos de quem fazia oposição ao governo militar. O cerco começou a se fechar também em direção à classe artística e os tropicalistas não eram exceção.
Dez dias depois, em mais um Divino Maravilhoso, já gravado, a gota d’água: Caetano cantou a marchinha “Boas Festas”, de Assis Valente, com um revólver apontado para sua cabeça. A cena brutal foi a senha para que o que vinha se desenhando naquele ano de 68 acontecesse: no dia 27, Gilberto Gil e Caetano Veloso foram presos e levados a quartéis diferentes, onde tiveram suas cabeleiras raspadas antes de serem banidos do país em fevereiro de 1969, pouco depois do carnaval.
A prisão dos dois e o fim do programa, que foi apresentado por Tom Zé durante um curtíssimo espaço de tempo, decretaram o fim do Tropicalismo. Aí fica a pergunta, que abre o leque para várias outras:
O que o Brasil perdeu nos anos 60? A democracia? A sua identidade cultural? A possibilidade de existir uma população menos miserável do que vemos hoje?
Pois o que se seguiu nos quarenta anos seguintes, embora tenhamos recuperado - depois de muito custo - o direito de nos expressarmos ideologicamente, a produção cultural no Brasil caiu. Proliferaram os cantores de música cafona, o que originou o “movimento da Cafonália” em contraponto à Tropicália e o Cinema Novo foi substituído pela pornochanchada de nudez apelativa e bilheteria fácil. O milagre econômico do nefasto governo Médici, celebrado em verso e prosa na época por músicas infames feito “Eu te amo, meu Brasil”, foi o estopim da explosão da dívida externa, a população cresceu e tornou-se na mesma proporção mais analfabeta - mesmo com o Mobral - e mais miserável do que já era em 1968.
Uma realidade que infelizmente persiste até hoje, com o Brasil-Bélgica fulgurante e o Brasil-Índia cada vez mais afundado na lama.
rss do blog




