De 2004 a 2007, eu sempre estive presente nas Mil Milhas. Apaixonado por corridas de Endurance, fui pra Interlagos atraído pelo fascínio e pelas histórias que eu conhecera de outras edições da prova, através de pilotos lendários e jornalistas idem.
Me emocionei quando encontrei alguns personagens desses fatos e estreitei laços de amizade com toda gente do automobilismo ao longo desses anos, em dias, noites e madrugadas fantásticas. Foi numa dessas Mil Milhas, a de 2006, que eu conheci por exemplo a excepcional figura que é o Luiz Alberto Pandini, afora muitos outros que a memória não recorda.
Em 2004 e 2005, fui apenas pra assistir e vi o Viper da equipe Racing Box ganhar com folga no primeiro ano e o incrível Audi TT-R importado por Xandy Negrão vencer no outro. No ano seguinte, como o Sportv teve um envolvimento razoável com o evento, entrei de produtor ao lado do ótimo repórter Tiago Leifert. Fizemos várias matérias, entradas ao vivo na programação e um compacto especial da corrida, que comentei ao lado do Jota Júnior.
Ano passado, fui de novo na condição de espectador privilegiado, mas abastecendo meu antigo blog, o Saco de Gatos, com notícias e fotos do fantástico evento que foi a prova de 2007. Tinha poucos carros, é verdade, mas o nível técnico foi sensacional e ver os Peugeot 908 HDi FAP massacrarem o recorde da prova foi um privilégio. Além de poder ouvir o ronco (ou seria trovão?) do motor V-8 do Corvette C6-R, o som sensacional do motor Audi dos Spyker, afora os outros grandes carros que por aqui pintaram.
Muito bem: passado o impacto positivo das duas últimas edições sob a batuta de Antonio Hermann como organizador, a expectativa seria por algo semelhante. Porém, a Le Mans Series excluiu o Brasil do calendário e, diante desta negativa, era de se esperar que houvesse um plano B. Esse plano existia, mas contemplava a Grand-Am com seus protótipos tubulares dotados de motores de série. Estética e competitivamente, nem se comparam à LMS. Mas era uma boa solução.
Só que negociar com gringo é difícil. Ainda mais com um país mergulhado na recessão e cujas equipes trabalham com planejamento e orçamento dirigidos para 14 corridas em território estadunidense. Brasil? Nem pensar.
A solução final foi trabalhar com um regulamento “aberto” a exemplo do que ocorreu em 2006, mas as principais equipes do exterior ou já encerraram suas atividades ou estavam envolvidas com outras competições, como o FIA GT que disputava na Argentina sua etapa final - com um público fabuloso em San Luis. Some-se a isso o fato da Stock Car, cujo calendário já se conhecia desde o fim do ano passado, realizar uma prova em Tarumã - o que tirou possíveis equipes e pilotos da prova.
Por isso, não foi surpresa nenhuma o vazio completo reinar em Interlagos ao longo do evento. Zero de público, zero de divulgação, quase zero de participação de boas escuderias. Excetuando-se o esforço da Stuttgart Sportcar de Dener Pires, da Old Boys de Eduardo Souza Ramos, da família Mello Pimenta, da Scuderia Tekprom do Rio de Janeiro e dos bons valores que guiaram os Maserati, além de um ou outro carro com bom nível de preparação, a corrida foi um triste retrato do que ela já foi um dia.
Esta postagem não é pra meter o sarrafo no Antonio Hermann. Até porque gosto dele, não tenho nenhum problema com ele, nosso relacionamento sempre foi muito bom - e foi ele quem me disse, em primeira mão, que as Mil Milhas seriam válidas para a Le Mans Series ano passado. Acho que ele precisa se conscientizar de que a prova tem uma história, um passado repleto de grandes momentos e que vale - muito - a pena resgatar o prestígio do evento.
Acho que o grande erro para este ano foi realizar as Mil Milhas praticamente ‘nas coxas’, como se diz no popular. Era melhor repensar, planejar e fazer bem-feito em 2009. Não interessa se a FASP já promove para janeiro o chamado GP São Paulo, que é uma prova longa nascida para suprir a brecha deixada pela própria Mil Milhas.
A corrida idealizada por Wilson Fittipaldi, o Barão, merece toda nossa consideração. Merece ser bem-tratada, bem organizada e ter o glamour que imperou na maioria de suas edições. Arregaçar as mangas para termos em 2009 um evento à altura de suas tradições é o grande desafio que Antonio Hermann tem que se impor. A partir de ontem, de preferência.
Do contrário, vai ser duro agüentar tanta melancolia como se viu em Interlagos no domingo.