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Maurren Higa Maggi ainda está no estúdio Globo/Sportv em Pequim, sorridente, conversando com Glenda Koslowski, enquanto escrevo este texto. Agora há pouco, estive com ela no Momento Olímpico, numa entrevista cheia de emoção. Ela tinha acabado de se tornar a primeira mulher brasileira a ganhar uma medalha de ouro numa prova individual. De fazer o hino nacional tocar no Ninho do Pássaro, o que não acontecia num estádio olímpico desde 1984. De dar ao Brasil seu segundo ouro em Pequim. E o que provocou o maior sorriso de Maurren não foi nada disso. Foi a Sofia.
Saí do estúdio com a esperança de que o ouro de Maurren não levante discussões sobre o fato de o Brasil estar ou não amarelando em Pequim – que deve ter ganhado força depois do terceiro set de Márcio e Fábio Luiz contra Rogers e Dalhauser. E nem sobre a falta de apoio ao esporte brasileiro – que o bronze do futebol masculino, em contraposição à prata do feminino, pode ter reavivado. (E vejam bem: não acho nem um nem outro tema irrelevante; ambos fazem parte de uma discussão que marca a participação brasileira nestes Jogos e que não deve acabar no domingo, com a cerimônia de encerramento). É só que eu queria que esse fosse o ouro da Sofia.
A filha de 3 anos de idade de Maurren, nascida no período em que ela enfrentava o pior momento de sua carreira – na verdade, nem carreira ela tinha naquele momento, porque decidira abandonar o atletismo depois da punição por doping –, tornou-se involuntariamente um símbolo dos sacrifícios que um atleta tem que fazer em busca da glória olímpica. Era só nela, na falta que ela faz, que a nossa campeã pensava, sorrindo e chorando, de medalha no peito.
A Sofia, tadinha, só sabia que estava com saudade. “Mamãe, eu te amo bastante”, inventou de dizer, levando a campeã olímpica às lágrimas, ainda na pista do Ninho do Pássaro, ouvindo a expressão de amor e espontaneidade da filhinha pelo fone de ouvido cedido pelo repórter Renato Ribeiro.
Os atletas que representam o Brasil em Pequim – os bem-sucedidos e os fracassados, os favoritos e os azarões, os patrocinados e os desamparados, os focados e os amarelões – têm pelo menos essa característica em comum: deixam
Estou piegas, sim. Com saudade de casa, da Simone, da Nina e do Pedro, as minhas Sofias. A gente também faz um sacrificiozinhos para estar aqui, na nossa Disneylândia. Mas tem sempre o momento de perceber que valeu a pena. Para a Maurren, foi quando ela botou a medalha de ouro no peito. Para mim, é quando tenho o prazer de ouvir histórias como a dela, para depois compartilhar com vocês.
Acabei de entrevistar Daniela Alves, meio-campo da seleção brasileira feminina de futebol, para o Arena Sportv e o Momento Olímpico. Com a medalha de prata nas mãos, Daniela – que teve a enorme gentileza de nos atender na madrugada de Pequim, depois de uma derrota na final olímpica e com o vôo para o Brasil marcado para as dez e meia da manhã – manteve uma postura da mais absoluta dignidade. Não chorou. Não pediu desculpas ao povo brasileiro. Mas também não foi arrogante, como quem não tem explicações a dar. O fato é que ela não tem mesmo explicação para o que acontece com o futebol feminino do Brasil em finais – já são duas pratas nos Jogos e uma no Mundial.
Há duas correntes principais de comentários neste blog sobre o desempenho do Brasil em Pequim: a turma do amarelão, que debita tudo na conta de uma suposta fraqueza de espírito do atleta – e quiçá do povo – brasileiro; e a ala da falta de apoio, que responsabiliza as confederações e o governo. Pois bem, estou curioso para saber o que uma e outra dirão da derrota da seleção feminina.
Primeiro, porque a postura de Daniela Alves – mais até do que suas declarações – me deixou convicto de que a seleção não amarelou. Cometeu erros, sim, mas nos planos tático (na defesa, mantendo a linha de três zagueiras contra apenas uma atacante, sem liberar as laterais para o apoio; no ataque, aceitando a marcação que afastou Marta de Cristiane) e técnico (principalmente na insistência em tentar resolver a partida em jogadas individuais).
Segundo, porque a mesma Daniela descartou com categoria a influência da falta de apoio ao futebol feminino no resultado da final. Falta trabalho de base, falta um campeonato nacional, falta investimento na formação de técnicos e técnicas, falta muita coisa. Mas não falta estrutura quando a seleção se reúne. E quando a bola rola, Daniela, Marta, Cristiane e outros talentos que brotam como flores no asfalto são capazes de enfrentar as melhores do mundo.
Para mim, o que fica dessa final é um retrato do esporte olímpico brasileiro. Em quase todas as modalidades, somos o país das exceções. Não temos tênis, tivemos Guga. Não temos basquete feminino, tivemos Paula, Hortência e Janeth. E ainda não temos futebol feminino, temos Marta, Cristiane e Daniela.
A prata de Pequim é muito menos do que merecem essas moças. Mas é muito mais do que merece o futebol brasileiro.
Ainda sou um novato no uso da ferramenta do blog, por isso pedi desde o início a paciência de vocês. Depois que publiquei o post do Armando Freitas, reli todos os comentários publicados sobre os meus posts e anotei os que me pediam uma resposta… mas ainda não aprendi a publicar respostas. A releitura, porém, me foi muito útil. Anotei alguns temas recorrentes e resolvi assumir o papel de vocês. Agora sou eu que entro aqui para discordar, para rebater algumas idéias. Não é completamente justo, porque vocês não terão o direito de impedir a publicação de um comentário meu – mas prometo que não vou escrever nenhum palavrão.
Aí vão as discordâncias:
1- “O Pan iludiu os brasileiros com relação às chances de medalhas em Pequim.” Não vejo como isso possa ocorrer. O desempenho do atleta olímpico não é medido apenas por medalhas em competições anteriores, mas também por seus tempos, suas marcas, seus resultados. Thiago Pereira – o exemplo mais citado – ganhou oito medalhas no Pan, mas não ouvi ninguém dizer que ele repetiria o feito nos Jogos. Ele era, sim, candidato às finais dos 200m e 400m medley, provas nas quais tem seus melhores tempos, e poderia sonhar com uma medalha se melhorasse seu tempo. E assim foi tratado pela imprensa, pelo menos no que li e vi.
2- “Criticar é fácil, só quem trabalha com esporte pode criticar os atletas.” O esporte é uma atividade praticada por especialistas para os não-especialistas – os torcedores, que no fim das contas, mesmo que de forma indireta, o sustentam financeiramente. E a relação do torcedor com o esporte não tem a obrigação de ser especializada. Pode ser passional. Não sei se é justo, mas é a regra do jogo, e os atletas a conhecem. Por isso, respeitei todas as opiniões de quem acha que Diego Hypólito amarelou. Só tentei fazer aqui o papel do jornalista, responsável pela ponte entre o especialista (atleta) e o não-especialista (torcedor).
3- “O esporte brasileiro não tem apoio.” Isso já foi verdade. Desde que a Lei Piva foi criada, no entanto, nenhuma confederação pode falar de falta total de recursos. Eles podem ainda não ser os ideais, mas existem. E alguns esportes, como a natação, têm ainda o patrocínio de grandes empresas – e seus resultados têm de ser cobrados nessa medida.
4- “Cesar Cielo só ganhou a medalha porque treina nos Estados Unidos”. Quase todos os nadadores que ganharam medalha em Pequim treinam ou treinaram nos Estados Unidos. É o centro de excelência do esporte. Sem treinar lá, Thiago Pereira, Kaio Márcio e Gabriela Silva fizeram finais olímpicas. Se conseguiriam ir mais longe morando fora, não é possível afirmar. E se ater a esse pensamento sobre o Cesão, ignorando o fato de que ele treinou muito no Brasil – com Albertinho, o treinador que respeita até hoje, e dividindo a piscina com o ídolo Gustavo Borges -, me cheira a complexo tupiniquim.
5- “Somos uma vergonha de país, porque estamos atrás da Etiópia, da Mongólia e da Jamaica no quadro de medalhas.” Gente, o quadro de medalhas é uma ficção. Nos Jogos Olímpicos, oficialmente, não existe competição geral entre países – embora os próprios países comprem essa briga, basta ver o empenho da China para ganhar mais ouros do que os Estados Unidos. O fato é que ter mais medalhas de ouro não torna imediatamente um país mais bem-sucedido do que o outro no universo olímpico. Imagine por exemplo um país que domine um esporte só, como o levantamento de peso, ganhando todos os 16 ouros em disputa. Ele seria hoje o quarto colocado no quadro de medalhas. Isso, em menor escala, é o que acontece com a Jamaica (nas provas de velocidade do atletismo), o Quênia e a Etiópia (nas provas de fundo). A forma correta de avaliar o desempenho do Brasil, a meu ver, é comparar nosso desempenho com o de outros Jogos. Continuamos ganhando medalhas no vôlei, no futebol, no judô, na vela. Saímos da disputa no basquete. E ainda não subimos ao pódio com a ginástica. No fim das competições, com o quadro completo, prometo voltar ao assunto.
Agora é com vocês de novo. Fiquem à vontade para discordar das discordâncias. Aprendi muito com os comentários de vocês, e espero continuar aprendendo. Assim que meu amigo Gustavo Poli me ensinar a responder diretamente aos comentários postados, publico as respostas lá. Saudações olímpicas!
Este não é um post sobre a eliminação do Brasil pela Argentina no torneio masculino de futebol de Pequim. Você vai encontrar avaliações muito melhores sobre o jogo em outros blogs, como a que acabei de ler no Jogo Aberto, do meu amigo e compadre Lédio Carmona. Só quis aproveitar o momento para dizer que já passou da hora de o futebol masculino dar adeus ao programa olímpico.
E não digo isso por menosprezo ao futebol, não. Muito pelo contrário. Só acho que ele não cabe nos Jogos Olímpicos. O futebol, hoje, é muito mais do que um esporte. É um fenômeno cultural mundial, talvez a indústria de entretenimento mais bem-sucedida de todos os tempos. Entre todos os esportes do programa olímpico, é o único que tem um mundial – a Copa – com mais espectadores do que os próprios Jogos.
O futebol masculino sufoca, com seu gigantismo, os outros esportes do programa olímpico – incluindo aí o futebol feminino. E isso mesmo com a representação bizarra que o eterno desentendimento entre Fifa e COI provoca. As chamadas seleções olímpicas – times sub-23 com direito a três gatos – não existem, são aberrações criadas apenas na época dos Jogos. Para esta edição, o Pré-Olímpico das Américas foi disputado por equipes sub-20. E os grandes clubes europeus, que têm cada vez mais talentos estrangeiros de pouca idade, ainda entraram em cena para questionar a liberação de seus jogadores (no que, segundo o Tribunal Arbitral do Esporte, estavam cobertos de razão).
Por que tanta confusão para no fim ter um esporte sub-representado nos Jogos Olímpicos? Outras ligas profissionais fortes – basquete, tênis – já resolveram o problema, encaixando o evento em seus calendários e liberando os principais atletas do mundo para participar da festa. Quem não se adequou – o beisebol – cai fora do programa já na próxima edição.
O fato é que Pequim ia muito bem, obrigado, sem o futebol. Agora chegam esses caras, tiram a atenção de outros esportes, Ronaldinho Gaúcho quase pára a vila olímpica… e no fim a gente ainda tem que aturar uma derrota para a Argentina.
Eu adoro futebol. Adoro Copa do Mundo. Mas também adoro os Jogos Olímpicos. Só acho que certas paixões não se misturam.
Amigos do blog, abri neste post um espaço para Armando Freitas, o amigo e companheiro de trabalho com quem tive a honra de escrever o Almanaque Olímpico. Se este é o blog do Almanaque, é dele também. Enquanto vocês curtem o post dele, vou ver se consigo responder às mensagens de vocês. Saudações olímpicas!
Segue o post do Armando:
De todas as histórias pequinesas que garantiram vaga por antecipação na próxima edição do Almanaque Olímpico Sportv, as que ajudaram a construir o mito Michael Phelps certamente vão ocupar o mais nobre espaço. Infelizmente, não tive o prazer de ver essas histórias sendo escritas diante dos olhos, como meu querido amigo Marcelo Barreto. Mas daqui, do outro lado do planeta, talvez tenha me emocionado tanto quanto ele com a consagração do maior herói olímpico de todos os tempos.
Seria óbvio. Mais do que isso: seria fácil. Dois posts atrás, escrevi sobre o complexo de vira-latas do atleta olímpico brasileiro. Um post atrás, escrevi que Diego Hypólito ganharia o ouro algumas horas depois. Juntar as duas coisas e atribuir o sexto lugar de Diego ao complexo seria tomar o atalho. Mas ele levaria ao destino errado.
Cheguei ao ginásio tão confiante quanto tinha chegado na véspera ao Cubo D´Água, para ver César Cielo. Acreditava e escrevi aqui que Diego ganharia o ouro não apenas por causa do desempenho que ele tivera na primeira apresentação, mas também pela postura que ele sempre mostrou nas muitas vezes em que o entrevistei. Diego Hypólito é um atleta focado, concentrado, que não “amarela”, que sabe exatamente o que precisa fazer para atingir seus objetivos e não refuga diante da pressão.
O que aconteceu naquele último toque no tablado, então? Foi azar, foi o imponderável, foi simplesmente uma falha… ou será que Diego finalmente sucumbiu à pressão? Pode ter sido tudo isso. Ou nada disso. Ainda não tive a oportunidade de falar com ele. Vi a entrevista emocionada que deu à repórter Glenda Koslowski na saída do ginásio, pedindo desculpas aos brasileiros. Falei com Eliana Martins, supervisora da Confederação Brasileira de Ginástica, que acha que Diego pode ter tido uma fração de segundo de relaxamento, ao perceber que estava a uma aterrissagem do ouro; e com Daiane dos Santos, que também já perdeu uma medalha considerada certa, e Jade Barbosa, mas as duas não o tinham encontrado, pois competiram logo em seguida.
Já li os comentários de alguns de vocês no post anterior, uns com raiva da minha previsão, outros falando numa amarelada. Sei que cada um terá sua explicação. Eu ainda não formulei a minha. Por enquanto, só sei que Diego sucumbiu a uma característica brutal do esporte que pratica: um erro joga por terra um trabalho de quatro anos (se levarmos em conta apenas o ciclo olímpico) e de uma vida toda (quando se considera o tempo dedicado ao esporte).
No post sobre o complexo de vira-latas, citei Diego como um dos exemplos a serem seguidos. Não vou tirá-lo da lista. E aproveito para incluir Tiago Camilo, que chegou a Pequim favorito ao ouro e saiu com o bronze. São atletas totalmente preparados para enfrentar os desafios de seus esportes. O problema é que, no mundo cruel dos Jogos Olímpicos, nem isso nem o talento garantem a vitória.
É possível, sim, ser o melhor, estar bem preparado e perder. A imagem de Diego se levantando incrédulo depois do tombo no último movimento é o retrato desse lado cruel do esporte. E é uma das imagens mais marcantes que vou levar de Pequim.
No Manual de Redação de O Globo, o brilhante jornalista Luiz Garcia reproduz o lide (como nós, jornalistas, chamamos o parágrafo de abertura) de um jornal americano sobre o assassinato do décimo-sexto presidente do país, Abraham Lincoln. São poucas linhas, sem um adjetivo, começando com (vai aqui de memória): “O Presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln, foi assassinado com um tiro ontem à noite, no Teatro Ford, em Washington D.C.” E por aí vai. A lição que Garcia quer passar é simples como o texto: quanto mais relevante o fato, menor a necessidade de rebuscar o estilo. Então, o que preparei para o capítulo de natação da próxima edição do Almanaque Olímpico Sportv é o seguinte: Michael Phelps ganhou oito medalhas de ouro.
O problema é que, por mais que eu queira economizar adjetivos (especialmente “histórico”), o feito de Phelps não pode ser resumido numa frase, porque há sempre mais do que o simples fato de ele ter conquistado oito medalhas de ouro. A única solução que encontro para falar de Phelps neste espaço sem gastar palavras que já foram muito usadas é recorrer aos números.
Vamos a eles:
Michael Phelps nadou 3.300 metros, entre eliminatórias, semifinais e finais, em oito dias. Teve, em alguns momentos, poucos minutos de descanso entre uma prova e outra.
Além das oito medalhas de ouro, bateu sete recordes mundiais (igualando Mark Spitz), chegando a 26 na carreira (superando Spitz).
O país Michael Phelps seria hoje – ao fim de uma semana, metade dos dias de competição nos Jogos Olímpicos – o quinto colocado no quadro de medalhas. Perderia para China (27 ouros), Estados Unidos (17, se não contarmos os cinco das provas individuais de Phelps), Alemanha (nove), Austrália e Grã-Bretanha (oito). O Brasil tem um ouro até o momento da publicação deste post (Diego Hypólito vai ganhar o segundo daqui a poucas horas) e saiu de Atenas 2004 com cinco.
Com os 14 ouros que conquistou em duas edições dos Jogos, Phelps é o maior medalhista olímpico de todos os tempos. Na Era Moderna, superou Larisa Latynina (ginástica artística), Carl Lewis e Paavo Nurmi (atletismo) e o homem que ele mais queria deixar para trás, Mark Spitz (natação). E entre os heróis da Grécia Antiga, derrubou Leônidas de Rhodes, vencedor de 12 corridas em quatro edições dos Jogos Olímpicos originais (esta última informação, cortesia de Emanuel Mello Mattos, já tem lugar reservado na próxima edição do Almanaque).
Eu tentei segurar… Mas não vou conseguir.
Histórico!!!!
A meu lado, na tribuna de imprensa do Ninho do Pássaro, Tadeu Schmidt gritava: “Ele bateu o recorde mundial dançando!” Estávamos todos embasbacados com o que Usain Bolt acabara de fazer na pista de atletismo. Eu perdi a foto que planejara fazer, dos corredores cruzando a linha de chegada. Ao ver a reta final de Bolt, simplesmente não consegui apertar o botão. No mesmo dia, ali ao lado, no Cubo D´Água, Michael Phelps tinha conquistado seu sétimo ouro na batida de mão. O capítulo reservado aos Jogos de Pequim na próxima edição do Almanaque Olímpico Sportv está ficando complicado de escrever…
Mas acho que já tenho um gancho. Na coluna que enviei para ser publicada amanhã no Jogo Extra, o caderno de esportes do Extra, escrevi que o grande personagem de Pequim não seria Phelps – e nem citei Bolt, que ainda não entrara na pista. O que de melhor e pior se fez na primeira semana destes Jogos foi obra do espírito humano. E agora, depois de ter visto o jamaicano dançar na linha de chegada, cheguei a outra conclusão: o corpo humano está evoluindo diante dos nossos olhos.
Não que essa evolução tenha começado agora, claro. “O gravador que você está usando para me entrevistar não é o mesmo que você usaria cinco anos atrás”, disse a esse respeito o russo Alexander Popov, ouro nos 50m e 100m livre da natação em Barcelona 1992 e Atlanta 1996, aos jornalistas brasileiros que o abordaram no Cubo D´Água. Concordo com ele. Mas a impressão que dá é de que a raça humana resolveu fazer um festival de lançamento de seus novos modelos nas instalações olímpicas pós-modernas de Pequim.
Ontem, por exemplo, vi Lebron James, um dos astros da seleção americana de basquete, em ação. No meu tempo, ou o cara era alto ou era rápido; ou era forte ou era habilidoso. Lebron é tudo isso e muito mais: foi capa da Vogue ao lado de Gisele Bündchen, tem um salário milionário, é um dos líderes do time, falando o tempo todo para incentivar os companheiros e intimidar os adversários.
Gente, pelo amor de Deus, não estou escrevendo essas coisas com pretensão científica. Mas é impossível ver Lebron, Phelps, Bolt ou Dara Torres – a americana de 41 anos que voltou a competir de dar à luz e está na final dos 50m livre – sem notar que algo de diferente está acontecendo com nossa espécie.
Quando o alemão Armin Hary correu os 100m rasos em 10 segundos, em 1958, imaginava-se que ele tinha atingido o limite de velocidade do ser humano. Cinqüenta anos depois, quem tem coragem de falar em limite?
Agora há pouco, recebemos César Cielo no estúdio Globo/Sportv em Pequim. A entrevista foi exibida ao vivo, de madrugada, e vai ser reprisada ao longo da programação e no Momento Olímpico da manhã deste sábado. Claro que Cielo já tem um capítulo garantido na próxima edição do Almanaque Olímpico Sportv – foi o primeiro medalhista de ouro da natação brasileira. Mas eu queria usar este espaço para debater um tema importante que a conquista de Cesão – como ele é chamado pela família, que lotou o estúdio – traz à tona.
Fui ao Cubo D´Água convicto de que veria o ouro. Levei até uma bronca de Galvão Bueno, ao encontrá-lo na sala de imprensa. “Vocês só falam em ouro, as pernas do menino vão acabar pesando uma tonelada”, alertou. Mas era justamente nisso que se baseava o meu otimismo: a impressão que o Cesão sempre me passou, antes e principalmente durante os Jogos, é de que a responsabilidade não pesa nas pernas dele. Na raia 4 daquela linda piscina, estava um atleta brasileiro que não se incomoda em ser apontado – ou até mesmo se apontar – favorito. Ele disse que ia ganhar o ouro, mergulhou, nadou… e ganhou.
Estou convicto de que o Brasil precisa de mais atletas assim. E, embora a atitude do Cesão – que muita gente já confundiu com arrogância – venha do berço, como confirmou a família na entrevista, gosto de acreditar que ela pode ser ensinada. Está na hora de livrar o Brasil olímpico do complexo de vira-lata – aquele que Nelson Rodrigues disse que o futebol derrubou há 50 anos, ganhando a Copa na Suécia. É uma generalização inútil e exagerada dizer que o atleta brasileiro sempre amarela. Mas acho que seria bastante útil discutir se nossa preparação psicológica é a mais adequada.
Está na hora de abrir o debate. Atletas, treinadores, dirigentes, psicólogos de dentro e de fora do esporte e nós, jornalistas e torcedores (que poderíamos começar nos perguntando se não temos uma certa implicância com favoritos e se não temos um prazer sádico em criticar quem chegou perto da vitória e tropeçou na hora H). O que podemos fazer para espalhar uma epidemia de autoconfiança no esporte brasileiro? Vamos pegar os exemplos de quem nunca teve medo de se pôr no papel de favorito, seja olímpico ou não: Cesão, Guga, Ayrton Senna, Nelson Piquet, Torben Grael… e, falando baixinho para não secar, a seleção masculina de vôlei, Diego Hypólito e Robert Scheidt, que ainda estão lutando por medalhas em Pequim.
Espero voltar ao assunto nos próximos dias. Por enquanto, quero ouvir vocês.
PS: Acabei de aprovar os primeiros comentários sobre o primeiro post e gostaria de agradecer pelas muitas demonstrações de carinho. Aos que me fizeram perguntas, prometo responder nos próprios comentários, assim que sobrar mais um tempinho entre as competições (estou saindo agora para ver badminton, o vôlei do Brasil e os 100m rasos) e a programação do Sportv. Saudações olímpicas!